8 de mai. de 2013

Edição 13 - Ainda existe CERTO e ERRADO?


08 de maio de 2013   
            
Ainda existe CERTO e ERRADO?

Parece não haver mais verdades absolutas e eternas. Vivemos num tempo em que o certo para um pode não ser para outro. Aliás, o que é certo para um pode ser encarado como errado pelo outro, e o que é considerado errado para um pode ser a mais absoluta verdade para outro. Como conseqüência, deixar de pagar impostos para uns é sonegação e pecado; já para outros é sinônimo de esperteza. Um, com a Bíblia na mão, afirma que a prática da homossexualidade é pecado; já outro, dizendo basear-se na mesma Bíblia, irá afirmar que esta é uma expressão legítima de amor. Alguns consideram o aborto como assassinato e pecado, já outros defendem a decisão soberana e sem culpa por parte da mãe pelo menos até o terceiro mês da gestação. Diante dessas e outras questões que se colocam perguntamos: ainda existe certo e errado?
Parece que não existem mais valores e princípios universal e eternamente aceitos. Estamos diante da imposição de um novo fundamentalismo: uma espécie disfarçada de imposição da ausência de valores e princípios, a não ser aqueles que a própria pessoa determina. Em última análise, o que é certo e errado torna-se uma questão de foro íntimo, uma questão de decisão pessoal e individual. Até mesmo a religiosidade e a espiritualidade passam a ser uma questão de arranjo pessoal, fluida e transitória. O que é verdade hoje para a mesma pessoa pode não ser mais amanhã. Como conseqüência, não se vê com bons olhos que uma palavra de alguma autoridade, fora de mim mesmo, me diga o que é certo ou errado, nem mesmo a Bíblia.  Como nos tempos dos juízes, cada um fazia o que lhe parecia certo (Juízes 17.6 e 21.25). “Eu tinha motivo para querer que o mundo não tivesse significado... Para mim, e sem dúvida para muitos de meus contemporâneos, a filosofia do sem sentido era essencialmente um instrumento de libertação. A libertação que nós desejávamos era simultaneamente libertação de um certo sistema político e econômico e de certo sistema moral. Fazíamos objeções à moralidade, porque ela interferia em nossa liberdade sexual” (Aldous Huxley).
Quer me parecer que nos encontramos diante de um dos maiores desafios que o cristianismo já enfrentou em sua história. A compreensão acima, uma vez assimilada, trará profundas implicações para a fé cristã, para nossos relacionamentos e também para a autoridade da Bíblia, enquanto Palavra de Deus. Todas as esferas da vida humana, desde a ética, a moral e a própria espiritualidade, serão por ela atingidas e influenciadas. Corremos o risco de que cada qual absolutize o seu próprio jeito de ser e viver, resultando numa completa diluição do Evangelho de Jesus Cristo. Caso seja jogada fora a autoridade da Bíblia como Palavra eterna de Deus, nada restará, a não ser viver a partir de nós mesmos e para nós mesmos como autoridade última e suprema.
 A questão que se coloca é a seguinte: é o comportamento humano que precisa se adequar às verdades da Bíblia, ou é a Bíblia que precisa adaptar-se às constantes mudanças culturais?
Como cristãos, nós cremos que a Bíblia é a Palavra de Deus. Sim, ela é a Palavra de Deus e não apenas a contém. Toda verdade vem de Deus, porque ele, em Jesus Cristo não apenas nos revelou a verdade, mas ele mesmo disse: Eu sou a verdade. É o próprio Deus quem decide o que é a verdade e o que é certo e errado. Por isso, o cristão abre mão de sua verdade individual e a submete a Deus, e se compromete com ela. Não é a experiência humana que ilumina e corrige a Escritura, mas é a Escritura que ilumina e corrige a experiência humana. Jesus ouviu as necessidades das pessoas e as levou em conta, mas não permitiu que a pressão do meio e as necessidades das pessoas definissem o caráter de seu ministério.
Ao contrário de muitos, não negociamos a Palavra de Deus visando lucro; antes, em Cristo falamos diante de Deus com sinceridade, como homens enviados por Deus (2 Coríntios 2.17).


P. Sigolf Greuel

Contato:  P. Joel Schlemper

Editorial: O Boletim Virtual  Luteranos em Movimento é organizado por um grupo de ministros da IECLB e tem por objetivo a reflexão e a Formação Cristã Continuada para dentro da igreja de Jesus. A edição é quinzenal e pode ser usado tanto para a reflexão pessoal como em grupos de estudo. É livre para distribuição.


23 de abr. de 2013

Edição 12 - Os cristãos de Beréia – Os cristãos da Noruega


Editorial: O Boletim Virtual  Luteranos em Movimento é organizado por um grupo de ministros da IECLB e tem por objetivo a reflexão e a Formação Cristã Continuada para dentro da igreja de Jesus.
A edição é quinzenal e pode ser usado tanto para a reflexão pessoal como em grupos de estudo.
É livre para distribuição e o conteúdo de edições anteriores pode ser acessado no blog: http://luteranos-em-movimento.blogspot.com.br/

Edição 12
23 de abril de 2013                
Os cristãos de Beréia – Os cristãos da Noruega

Dias atrás li uma reportagem que trazia a seguinte manchete – “Primeira pastora lésbica da Noruega renuncia”[1]. A razão para a renúncia, segundo a reportagem, seria uma forma de protesto da pastora que no ano de 1997 casou-se com uma mulher.
A pastora norueguesa se candidatou a diferentes campos de atividades ministeriais da igreja em seu país, porém, pelo fato de conviver com uma pessoa do mesmo sexo, sua candidatura não foi aceita. Tal dificuldade motivou o pedido de anulação da sua ordenação: "Ficou insustentável para mim representar uma Igreja que ainda pratica a exclusão", declarou Hilde Raastad na edição do jornal norueguês Aftenposten.

Apesar de a Igreja Luterana na Noruega autorizar a ordenação de pastores/as homossexuais, esse exemplo mostra que há congregações convencidas de que a decisão da igreja não está em conformidade com os ensinamentos das Sagradas Escrituras e demonstram clara resistência.

Esse episódio me fez lembrar uma passagem bíblica muito interessante que nos ajuda a nos posicionarmos frente aos temas que, hoje, representam um grande desafio a igreja. Em Atos 17.11 lemos: Os bereanos eram mais nobres do que os tessalonicenses, pois receberam a mensagem com grande interesse, examinando todos os dias as Escrituras, para ver se tudo era assim mesmo.

O cuidado dos bereanos ao avaliar a mensagem que receberam, confrontando-a com as Escrituras é elogiado pelo autor de Atos como uma atitude nobre. Lucas poderia ter classificado esse gesto como uma demonstração de desconfiança, incredulidade ou arrogância. Mas não, ele o ressalta como uma virtude dos bereanos, deixando claro o que recomenda a seus leitores de então e de hoje.

O esforço de Lutero, durante a Reforma, para tornar a Bíblia acessível e compreensível ao povo foi um ato libertador e deu ao povo cristão uma grande responsabilidade. Não era mais a Igreja que dizia no quê e como o povo deveria fundamentar a sua fé, nem mais determinava como a Bíblia deveria ser entendida. O reformador abriu para a comunidade a possibilidade de questionar e a avaliar o que é ensinado. Ou seja, ao conhecer o conteúdo da Palavra de Deus ninguém mais vive sob o jugo da interpretação tendenciosa dos que se julgam no direito de determinar o que é certo e errado.

Esse é o legado da Reforma para os nossos dias. As Sagradas Escrituras nos dão clara orientação do que corresponde ou não com a vontade de Deus. Mesmo sob a pressão da sociedade e de argumentos apresentados como politicamente corretos devemos manter-nos fiéis à Palavra de Deus.

Apesar de a mídia rotular os luteranos noruegueses que não aceitaram a pastora lésbica como homofóbicos, eu os considero nobres noruegueses “bereanos”. Eles seguem o exemplo de Lutero que corajosamente declarou diante do parlamento do império que o julgava: "A menos que eu seja convencido pelas Escrituras e pela razão pura e já que não aceito a autoridade do papa e dos concílios, pois eles se contradizem mutuamente, minha consciência é cativa da Palavra de Deus".
A tradição luterana nos desafia a agir como bons bereanos e avaliar tudo na perspectiva das Sagradas Escritura, rejeitando qualquer doutrina ou decisão o que não está em conformidade com ensino dela.

P. Joelson E. Martins – São José, SC


Contato:  P. Joel Schlemper

10 de abr. de 2013

Edição 11 - Será a igreja ainda relevante?


Edição 11
10 de abril de 2013                
Será a igreja ainda relevante?

Compartilho uma notícia veiculada na Folha de São Paulo no dia 30 de março, em plena véspera da Páscoa:

Sem fiéis, igreja alemã põe templos à venda!
Vende-se uma igreja por 135 mil euros (R$ 350 mil). Quem está à procura de uma capela pode conseguir uma por 20 mil euros (R$ 51 mil). Essas ofertas são da arquidiocese de Berlim, que tenta há semanas se desfazer de templos que estão órfãos de fiéis. Embora a Igreja Católica tenha sido liderada recentemente pelo papa alemão Bento XVI, 400 templos foram fechados, na Alemanha, em 2011, de acordo com a Conferência Episcopal do país. Com a Igreja Evangélica alemã não é diferente. Os evangélicos criaram um site para divulgar a oferta de 170 templos e 140 terrenos. De 1990 a 2010, 340 templos evangélicos foram fechados no país, segundo o diário espanhol "El País". O índice de alemães católicos e evangélicos caiu 10% e 17%, respectivamente, desde os anos 1990. Uma igreja evangélica localizada na cidade de Hamburgo, vendida no final do ano passado, por falta do comparecimento de fiéis, agora está nas mãos do islã. O negócio acabou com a convivência pacífica entre cristãos e muçulmanos na cidade.

À distância, não temos condições para avaliar as razões do esvaziamento da vida comunitária no berço da Reforma. E nem pode ser nossa intenção estabelecer qualquer tipo de julgamento. Ainda assim, não deveríamos ignorar tais notícias, pois fatos como estes lançam sobre nós algo como um temor profético. Necessariamente havemos de nos perguntar: nossas comunidades em solo brasileiro correm um risco semelhante no futuro?

O risco imediato poderia ser que nos sintamos pressionados por este temor. Uma pressão que nos levaria a antecipar que também entre nós possa haver uma fuga lenta, mas progressiva dos fiéis de nossas comunidades. O que facilmente poderia nos levar a uma tentativa (nem sempre consciente) de adaptar nosso testemunho e nossa prática comunitária “ao gosto do cliente”, imaginando que assim faríamos de nossas comunidades e igrejas relevantes. Mas assim teríamos um Evangelho diluído, prostrado diante do estilo de vida e da cultura de cada geração. O ser humano seria alçado à condição de senhor, e Deus seria submetido à condição de criatura, a quem nada mais resta senão abençoar todas as decisões e atitudes do ser humano, por mais louco que isso possa parecer. Sob estes pressupostos e refém do espírito da época, a igreja nada mais seria do que ONG religiosa.

Não seria este um tiro a sair pela culatra?

Certamente a igreja não se tornará relevante simplesmente por se adequar ao estilo de vida de cada geração e por assumir um discurso politicamente correto. Fazendo isso, ela até poderia tornar-se relevante ao ser humano, mas certamente se tornaria irrelevante para o Senhor da Igreja. Não seria este um importante motivo para o esvaziamento da igreja?Uma Igreja adaptada à cultura de seu tempo e refém do espírito de sua época, na pretensão de atrair pessoas, acabará por não fazer mais diferença alguma em sua realidade e na vida das pessoas, que logo a deixarão, porque ela perdeu justamente aquilo que representa a sua relevância.

A relevância diante do Senhor é a condicionante para a relevância para as pessoas e para o mundo. Só assim ela fará diferença na vida das pessoas. Relevante ela será na medida em que conduzir pessoas a se submeter ao senhorio de Jesus Cristo e a libertar-se dos ditames da cultura vigente, quando estes estiverem em oposição à Palavra de Deus. Relevante ela será quando ensinar as pessoas a temer e a reverenciar a Deus acima de todas as coisas.  Relevante ela será na medida em que ela mesma se submeter à Palavra de Deus que encontramos na Bíblia e anunciar a justificação do pecador ao invés do pecado. Relevante ela será na medida em que tiver a coragem de anunciar neste mundo multi-religioso que Jesus Cristo é o único caminho e que não há salvação em nenhum outro nome.

P. Sigolf Greuel

2 de abr. de 2013

Edição 10 - COMO LUTERANOS INTERPRETAM A BÍBLIA


Editorial: O Boletim Virtual  Luteranos em Movimento é organizado por um grupo de ministros da IECLB e tem por objetivo a reflexão e a Formação Cristã Continuada para dentro da igreja de Jesus.
A edição é quinzenal e pode ser usado tanto para a reflexão pessoal como em grupos de estudo.
É livre para distribuição.

Edição 10
27 de março de 2013

COMO LUTERANOS INTERPRETAM A BÍBLIA

          A cultura pós-moderna que relativiza a verdade e a moral também relativiza a leitura e interpretação da Bíblia. Assim, pessoas diferentes fazem interpretações contraditórias usando o mesmo texto bíblico.Quando não se tem princípios claros que norteiam a interpretação bíblica, ela estará refém dos pressupostos do leitor. Os textos deixam de dizer o que dizem e passam a dizer o que queremos que digam. Ou seja, a interpretação é condicionada ao leitor.

Na linguagem teológica chamamos de hermenêutica essa tarefa de interpretação bíblica. Então, que hermenêutica usamos para a leitura da Bíblia? Qual seria mais confiável para não deixarmos a leitura e interpretação bíblica a mercê de nossos interesses? Como luteranos, devemos voltar a Lutero. Sua proposta de interpretação da Bíblia poderia ser esta ferramenta mais segura para não sujeitarmos a Bíblia aos interesses de cada geração.

Lutero afirmou enfaticamente que ler a Bíblia distinguindo lei e evangelho era a forma correta de interpretar as Escrituras. Como funciona isso? A lei é aquilo que mostra o nosso pecado, que aponta nossa perdição, nossa falência total diante de Deus. Por isso, a lei mata e condena. Contudo, ela é importantíssima, pois mostra a toda a pessoa a necessidade radical que possui diante de Deus. Nesse momento, entra o evangelho. Ele é a boa notícia de que Deus proveu perdão e salvação por meio do sacrifício de Cristo na cruz. Embora condenável, o ser humano é amado por Deus, e este lhe proveu a quitação de toda culpa e pleno acolhimento em sua presença santa, antes inacessível. A tomada de consciência da condição de perdido diante de Deus e, respectivamente, do perdão imerecido, chamamos arrependimento. Assim, a lei conduz o homem a Cristo ao mostrar sua condição e sua necessidade. A graça de Deus o acolhe, perdoa, santifica, justifica, redime e, pela presença do Espírito Santo, oferece condições de viver uma nova vida.

Quando pregamos apenas a lei ou o juízo de Deus, caímos no legalismo. O legalismo mostra o pecado, mas não diz como sair dele. Ele coloca sobre os ombros das pessoas um peso que elas não podem carregar. Se pudessem, Cristo não precisaria ter morrido na cruz. Na igreja, gera dois tipos de pessoas: o primeiro é o hipócrita, aquele que não consegue viver a altura do padrão de Deus, mas finge que vive. É o tipo de pessoa que julga nos outros o que não consegue resolver em si mesmo. A espiritualidade vira uma questão estética, de aparência, dividindo o que se é no ambiente eclesiástico o que se é na vida privada. Gera pessoas endurecidas, julgadoras e arrogantes. O segundo grupo são daquelas pessoas sinceras, que percebem não poder atingir o padrão de Deus por meio de seus próprios esforços, e que saem da igreja por não suportar a pressão sobre si nem a hipocrisia dos outros. Acabam terminando feridas, frustradas e incapazes de serem “verdadeiros cristãos”.

Quando oferecemos o evangelho sem a lei, caímos no fosso do liberalismo. O teólogo Dietrich Bonhoeffer chamou isso de “graça barata”. Nesse contexto, não é mais o pecador que é justificado, mas o seu pecado. Não é a pessoa que é acolhida, mas o seu comportamento reprovável. O perdão vira um direito, não mais um privilégio. O sangue de Jesus é pisado e o Espírito da graça, ultrajado. É justificação da irreverência e do cinismo. É a forma mais perversa de maquiar o mal.
        
Assim, para não estarmos sujeitos aos ventos da contemporaneidade, somos convidados a limpar nossos óculos das interpretações próprias e buscar uma forma segura, e por que não dizer, mais luterana, de estudar um texto bíblico e dele tirar conclusões e aplicações.
P. Daniel Schorn – Orleans - SC


Contato

14 de mar. de 2013

Edição 9 - Pecado, Confissão de Pecado, Penitência, Perdão e Absolvição


Edição 9
13 de março de 2013

Pecado, Confissão de Pecado, Penitência, Perdão e Absolvição

IntroduçãoA realidade do mal e do pecado faz parte da condição humana. Em sua limitação para praticar o bem a humanidade produz muita dor e sofrimento e o sentimento de culpa instala-se implacavelmente nas consciências a ponto de produzir grande tribulação e angústia. Como o ser humano pecador pode lidar com o pecado e com a culpa que ele provoca? Como ser redimido?  Estas são questões muito importantes sobre a existência humana.

Pecado e Perdão no ATNo Antigo Testamento, a problemática do mal e do pecado é tratada no contexto da pureza legal que, por sua vez, tem como pano de fundo a Aliança (Levítico 4-6). A quebra da Aliança é a causa do mal e do sofrimento. Nisto residia a idéia de pecado: “quebrar o acordo com Deus”. Para superar o mal e obter o perdão, o fiel devia demonstrar fidelidade a Deus através do sacrifício. Havia no sacrifício vetero-testamentário a idéia de confiança em Deus que, por sua graça, estava disposto a perdoar mediante um sacrifício de sangue.
Não demorou para que a tendência do legalismo e do ritualismo penetrasse fortemente na consciência do povo de Israel. Os ritos sacrificiais eram cumpridos como se tivessem um valor em si mesmos, esquecendo-se o seu fundamento, a Aliança firmada na graça de Deus que renovava todas as coisas. Para resgatar o sentido original do perdão dos pecados surgem novos discursos e práticas: a) a pregação profética que lembra a fidelidade à Aliança (Os 1-3; Am 9.11-15; Mq 7.8-20; Jr 31; Is 26-27); b) a confissão de pecados (Jr. 2-5; Ne 9.2s; Sl 51, 52 e 53; c) os ritos de arrependimento e conversão, como o uso de pano de saco e cinzas, rasgar as vestes, jejuns (Jó 2.8, 30.19, 42,6;  Is 58,5; 2 Sm 3.31, 1 Rs 21,12); d) a exclusão da sinagoga como gesto extremo para quem não quer mais ser fiel à Aliança (João 9.22).

Pecado e Perdão no NTA consciência de pecado e culpa está bastante permeada no Novo Testamento, bem como o chamado ao arrependimento. A fidelidade à Aliança, porém, agora é vista na perspectiva da chegada do reino de Deus (Mc 1.4 e 15; At 2.38, 3.19. Arrependimento e conversão passam a ser condição para entrar no reino de Deus. Eles aparecem a partir do estímulo reconfortante da certeza da satisfação da justiça de Deus mediante o sacrifício vicário de Jesus na cruz do Gólgota, como o “cordeiro de Deus que tira o pecado do mundo” (Jo 1.29).
Em seu ministério Jesus curava os doentes e perdoava pecados. Era um sinal claro de resgate da pessoa perdida e marginalizada ao convívio de Deus e da comunidade que o havia excluído e apontavam sempre para a proximidade do Reino (Mc 1-2; Lc 19.1-10; Jo 8.3-11).
Jesus desejou que sua atitude fosse imitada pelos seus discípulos e para isso transmitiu a eles o poder de perdoar os pecados (Jo 20.21-23).

Pecado e Perdão na IgrejaAs primeiras comunidades logo perceberam que o mal e o pecado continuam presentes nas pessoas provocando divisões, disputas e brigas (1 Co 1.10-13; 6.1-8). Por isso a comunidade era constantemente chamada à conversão e santificação e a confiar na misericórdia de Deus (1 Jo 2.1-2). A confissão de pecados foi empregada ao longo da história de diversas formas, passando desde a confissão pública, à confissão auricular (particular a um confessor) e a prática da confissão individual e secreta. Esta última assumiu a forma mais comum nos dias atuais, mas é inegável a importância da confissão pública de pecados e da prática de cada cristão ter o seu confessor para, dele, ouvir em lugar de Cristo as palavras de absolvição de pecado (Mt 16.19; Jo 20.23).

Vida Cristã: da prisão do diabo à liberdade de CristoA nossa caminhada de fé estende-se entre a prisão da culpa e o castelo do perdão. Estávamos aprisionados por Satanás, mas Deus já abalou pela força de sua graça as muralhas da prisão. Saídos desta prisão diabólica andamos por fé em direção ao castelo de Deus, onde há liberdade plena e definitiva. Assim como Faraó perseguiu o povo hebreu no deserto Satã envia seus guardas para nos escravizar novamente. Dentro de nós, o velho Adão e a velha Eva são seus aliados valiosos. Porém Deus nos envia um poderoso protetor, que é o poder do perdão concedido por meio do sacrifício de Jesus Cristo.

Confissão e PenitênciaEm Mateus 4.17 Jesus diz: “Arrependei-vos porque está próximo o reino dos céus”. Isto é o mesmo que ser penitente. Lutero iniciou as 95 teses ensinando que “ao dizer ‘fazei penitência’ nosso Senhor e Mestre Jesus Cristo quis que toda a vida dos fiéis fosse penitência (arrependimento)”. Penitência não são apenas os momentos em que se pratica o ato penitente, mas é também toda a vida do cristão: arrependimento do pecado por amor a Deus e receber dele o seu perdão. O “coração” da penitência é aquilo que Deus faz (concede perdão) e não o que o penitente realiza. O que está em jogo aqui é a certeza do perdão e isto não é possível alcançar com as nossas obras reparadoras, mas apenas com a graça de Deus.

Confissão de PecadosA confissão de pecados foi empregada ao longo da história de diversas formas, passando desde a confissão pública, à confissão auricular (particular a um confessor) e a prática da confissão individual e secreta. Esta última assumiu a forma mais comum nos dias atuais, mas é inegável a importância da confissão pública de pecados e da prática de cada cristão ter o seu confessor para, dele ouvir, em lugar de Cristo, as palavras de absolvição de pecado (Jo 20.23).

Perdão: libertação para o serviço ao próximoSegundo Lutero, “Deus não quer perdoar o pecado de ninguém, a não ser que perdoemos também ao nosso próximo”. O perdão de Deus liberta-nos da fixação de nós mesmos e abre nossos corações para o próximo e suas necessidades.

P. Edson R. Scherdien

Contato

1 de mar. de 2013

Edição 8 - Ser, participar, testemunhar – Eu vivo comunidade

Edição 8
28 de fevereiro de 2013

Ser, participar, testemunhar – Eu vivo comunidade.
O lema bíblico

Ainda que cercados por progresso e inovações, vivemos tempos marcados por angústias e temores. O medo do futuro, da morte, certamente é o maior de todos. Nas tentativas de abafá-lo, mergulha-se em afazeres; preenche-se o tempo livre com agito; consome-se as últimas novidades e – como último recurso – busca-se consolo nalguma droga lícita ou ilícita.

O lema bíblico escolhido para a campanha anima, mas o recorte omite que ele remete à realidade do medo. Fazemos bem em mencionar o versículo por inteiro, poisDeus nunca se manifesta sem referir-se à nossa vivência concreta: “Não tema, pois estou com você; não tenha medo, porque eu sou o seu Deus. Eu o fortalecerei e ajudarei; eu o segurarei com a minha mão direita vitoriosa” (Is 41.10).

Ainda que dita pelo profeta uns 500 anos antes de Cristo aos israelitas que ansiavam pelo fim do exílio na Babilônia, também nós podemos acolher esta palavra de Deus como dirigida a nós. Não vivemos nós também como exilados, como corpo estranho, num mundo em que outros deuses parecem mandar? Não estamos em perigo de nos tornar escravos da compulsão do consumo? Não nos angustia nossa incapacidade de ser o que deveríamos ser? Não ansiamos por ajuda eficaz?A promessa divina nos convida a admitir nossos temores e abrir-nos para a esperança que Deus mesmo gera.

O Criador do inimaginavelmente vasto universo veio a nós em seu Filho e se oferece para amparar-nos com seu poder gracioso e imensurável. No abrigo da sua mão vitoriosa sobre diabo, pecado e morte (1Co 15) estamos a salvo de todas as angústias. Por meio de Jesus Deus definitivamente manifestou sua ajuda vitoriosa.

Assim o lema bíblico para 2013 não é um adendo, mas a palavra norteadora para nosso ser, participar e testemunhar e quer moldar nossa vivência comunitária.                                                        

P. Martin Weingaertner, Curitiba – prweingaertner.martin@gmail.com 

Contato: joelschlemper@gmail.com

5 de fev. de 2013

Edição 7 - A fé cristã e o carnaval



A FÉ CRISTÃ E O CARNAVAL

Festas semelhantes ao Carnaval podem ser encontradas em todas as culturas, desde a antiguidade. Geralmente, eram festas populares, vinculadas aos cultos de fertilidade, mediante os quais se apresentavam agradecimentos aos deuses pela colheita e pelos frutos da terra. Eram festas em que geralmente os valores e preceitos morais eram “relaxados” e onde as pessoas tinham mais “liberdade” de ser e fazer o que quisessem. O Carnaval, contudo, foi assumindo a forma atual a partir da Idade Média, quando a Igreja instituiu as celebrações da Semana Santa. Por isto, o Carnaval (como a Páscoa) é uma festa móvel: ele sempre acontece 47 dias antes da Páscoa. Como a Páscoa é fixada para o Domingo após a primeira lua cheia depois do equinócio da Primavera (no hemisfério Norte), o Carnaval ocorre 47 dias antes, numa Terça-feira (chamada: Terça Gorda!). Isto porque no dia seguinte começa a Quaresma, que é um período de jejuns e de mortificação, onde a sociedade deixa de lado os prazeres da carne, e se prepara espiritualmente para a celebração da Páscoa. Por isso, Carnaval vem do latim: carni valles = prazeres da carne! Por esta razão, a festa foi assumindo a sentido de uma “liberação total dos prazeres da carne”, um vale tudo, já que depois disso teria que se abandonar esses prazeres.

Poderíamos fazer uma longa análise destas coisas em nossos dias. Fato é que vivemos numa sociedade “líquida”, onde não se sabe mais o que é certo e o que é errado, e cada vez mais as pessoas precisam das festas para sobreviver. E o carnaval é a supra-sumo delas no Brasil. As cores, a música, a dança, as fantasias e a liberdade, especialmente sexual, em muitos casos reprimida durante o ano, tornam o carnaval o evento mais popular do nosso país. As pessoas precisam de espetáculo, de injeções de cores, quando a vida não passa de uma grande variação de tonalidades de cinza. Vivemos numa Sociedade do Espetáculo, como a definiu Guy Debord, que cria uma sede artificial nas pessoas, que se rendem a ela, pois não encontram outras razões existenciais para enfrentar um cotidiano cinza demais para se viver... Sociedade que coisifica as pessoas, para satisfazer seu lucro, sua ganância.

Deus nos dá outra razão para viver. Pela fé em Cristo, temos uma nova vida, e encontramos uma razão para nossa existência. Ele nos liberta das paixões e dos prazeres da carne, para que tenhamos uma vida plena, em que não somos sujeitos e escravos de nada. Não mais lutamos segundo a carne (2 Cor 10.3), nem mais lhe somos devedores (Rm 8.12), pois ela foi crucificada com Cristo (Gl 5.24).

A fé cristã, contudo, não é contra festas!O evangelho não proíbe a alegria (Jo 15.11). Pelo contrário, ele nos devolve a alegria, ele tira a vida do “cinza” e a torna muito alegre... Não é possível imaginar uma VIDA PLENA (Jo 10.10), como Deus a deseja para nós, desprovida de alegria, gozo, celebração e festa! Será que a Igreja tem falhado em mostrar esta face da fé cristã para o mundo? Somos felizes 365 dias por ano. Somos livres, e não dependemos do Carnaval para nos “extravasarmos”. Quem vive uma vida com Deus está louco mesmo para “extravasar” a paz, o amor e a alegria que encontrou no seu Criador. Temos muitos motivos para celebrar. Façamos isto, sendo livres, alegres, curtindo a vida e o amor eterno que nós conhecemos em Jesus! Aleluia!

                                                        P. Rui Petry – Florianópolis, SC