14 de mar. de 2013

Edição 9 - Pecado, Confissão de Pecado, Penitência, Perdão e Absolvição


Edição 9
13 de março de 2013

Pecado, Confissão de Pecado, Penitência, Perdão e Absolvição

IntroduçãoA realidade do mal e do pecado faz parte da condição humana. Em sua limitação para praticar o bem a humanidade produz muita dor e sofrimento e o sentimento de culpa instala-se implacavelmente nas consciências a ponto de produzir grande tribulação e angústia. Como o ser humano pecador pode lidar com o pecado e com a culpa que ele provoca? Como ser redimido?  Estas são questões muito importantes sobre a existência humana.

Pecado e Perdão no ATNo Antigo Testamento, a problemática do mal e do pecado é tratada no contexto da pureza legal que, por sua vez, tem como pano de fundo a Aliança (Levítico 4-6). A quebra da Aliança é a causa do mal e do sofrimento. Nisto residia a idéia de pecado: “quebrar o acordo com Deus”. Para superar o mal e obter o perdão, o fiel devia demonstrar fidelidade a Deus através do sacrifício. Havia no sacrifício vetero-testamentário a idéia de confiança em Deus que, por sua graça, estava disposto a perdoar mediante um sacrifício de sangue.
Não demorou para que a tendência do legalismo e do ritualismo penetrasse fortemente na consciência do povo de Israel. Os ritos sacrificiais eram cumpridos como se tivessem um valor em si mesmos, esquecendo-se o seu fundamento, a Aliança firmada na graça de Deus que renovava todas as coisas. Para resgatar o sentido original do perdão dos pecados surgem novos discursos e práticas: a) a pregação profética que lembra a fidelidade à Aliança (Os 1-3; Am 9.11-15; Mq 7.8-20; Jr 31; Is 26-27); b) a confissão de pecados (Jr. 2-5; Ne 9.2s; Sl 51, 52 e 53; c) os ritos de arrependimento e conversão, como o uso de pano de saco e cinzas, rasgar as vestes, jejuns (Jó 2.8, 30.19, 42,6;  Is 58,5; 2 Sm 3.31, 1 Rs 21,12); d) a exclusão da sinagoga como gesto extremo para quem não quer mais ser fiel à Aliança (João 9.22).

Pecado e Perdão no NTA consciência de pecado e culpa está bastante permeada no Novo Testamento, bem como o chamado ao arrependimento. A fidelidade à Aliança, porém, agora é vista na perspectiva da chegada do reino de Deus (Mc 1.4 e 15; At 2.38, 3.19. Arrependimento e conversão passam a ser condição para entrar no reino de Deus. Eles aparecem a partir do estímulo reconfortante da certeza da satisfação da justiça de Deus mediante o sacrifício vicário de Jesus na cruz do Gólgota, como o “cordeiro de Deus que tira o pecado do mundo” (Jo 1.29).
Em seu ministério Jesus curava os doentes e perdoava pecados. Era um sinal claro de resgate da pessoa perdida e marginalizada ao convívio de Deus e da comunidade que o havia excluído e apontavam sempre para a proximidade do Reino (Mc 1-2; Lc 19.1-10; Jo 8.3-11).
Jesus desejou que sua atitude fosse imitada pelos seus discípulos e para isso transmitiu a eles o poder de perdoar os pecados (Jo 20.21-23).

Pecado e Perdão na IgrejaAs primeiras comunidades logo perceberam que o mal e o pecado continuam presentes nas pessoas provocando divisões, disputas e brigas (1 Co 1.10-13; 6.1-8). Por isso a comunidade era constantemente chamada à conversão e santificação e a confiar na misericórdia de Deus (1 Jo 2.1-2). A confissão de pecados foi empregada ao longo da história de diversas formas, passando desde a confissão pública, à confissão auricular (particular a um confessor) e a prática da confissão individual e secreta. Esta última assumiu a forma mais comum nos dias atuais, mas é inegável a importância da confissão pública de pecados e da prática de cada cristão ter o seu confessor para, dele, ouvir em lugar de Cristo as palavras de absolvição de pecado (Mt 16.19; Jo 20.23).

Vida Cristã: da prisão do diabo à liberdade de CristoA nossa caminhada de fé estende-se entre a prisão da culpa e o castelo do perdão. Estávamos aprisionados por Satanás, mas Deus já abalou pela força de sua graça as muralhas da prisão. Saídos desta prisão diabólica andamos por fé em direção ao castelo de Deus, onde há liberdade plena e definitiva. Assim como Faraó perseguiu o povo hebreu no deserto Satã envia seus guardas para nos escravizar novamente. Dentro de nós, o velho Adão e a velha Eva são seus aliados valiosos. Porém Deus nos envia um poderoso protetor, que é o poder do perdão concedido por meio do sacrifício de Jesus Cristo.

Confissão e PenitênciaEm Mateus 4.17 Jesus diz: “Arrependei-vos porque está próximo o reino dos céus”. Isto é o mesmo que ser penitente. Lutero iniciou as 95 teses ensinando que “ao dizer ‘fazei penitência’ nosso Senhor e Mestre Jesus Cristo quis que toda a vida dos fiéis fosse penitência (arrependimento)”. Penitência não são apenas os momentos em que se pratica o ato penitente, mas é também toda a vida do cristão: arrependimento do pecado por amor a Deus e receber dele o seu perdão. O “coração” da penitência é aquilo que Deus faz (concede perdão) e não o que o penitente realiza. O que está em jogo aqui é a certeza do perdão e isto não é possível alcançar com as nossas obras reparadoras, mas apenas com a graça de Deus.

Confissão de PecadosA confissão de pecados foi empregada ao longo da história de diversas formas, passando desde a confissão pública, à confissão auricular (particular a um confessor) e a prática da confissão individual e secreta. Esta última assumiu a forma mais comum nos dias atuais, mas é inegável a importância da confissão pública de pecados e da prática de cada cristão ter o seu confessor para, dele ouvir, em lugar de Cristo, as palavras de absolvição de pecado (Jo 20.23).

Perdão: libertação para o serviço ao próximoSegundo Lutero, “Deus não quer perdoar o pecado de ninguém, a não ser que perdoemos também ao nosso próximo”. O perdão de Deus liberta-nos da fixação de nós mesmos e abre nossos corações para o próximo e suas necessidades.

P. Edson R. Scherdien

Contato

1 de mar. de 2013

Edição 8 - Ser, participar, testemunhar – Eu vivo comunidade

Edição 8
28 de fevereiro de 2013

Ser, participar, testemunhar – Eu vivo comunidade.
O lema bíblico

Ainda que cercados por progresso e inovações, vivemos tempos marcados por angústias e temores. O medo do futuro, da morte, certamente é o maior de todos. Nas tentativas de abafá-lo, mergulha-se em afazeres; preenche-se o tempo livre com agito; consome-se as últimas novidades e – como último recurso – busca-se consolo nalguma droga lícita ou ilícita.

O lema bíblico escolhido para a campanha anima, mas o recorte omite que ele remete à realidade do medo. Fazemos bem em mencionar o versículo por inteiro, poisDeus nunca se manifesta sem referir-se à nossa vivência concreta: “Não tema, pois estou com você; não tenha medo, porque eu sou o seu Deus. Eu o fortalecerei e ajudarei; eu o segurarei com a minha mão direita vitoriosa” (Is 41.10).

Ainda que dita pelo profeta uns 500 anos antes de Cristo aos israelitas que ansiavam pelo fim do exílio na Babilônia, também nós podemos acolher esta palavra de Deus como dirigida a nós. Não vivemos nós também como exilados, como corpo estranho, num mundo em que outros deuses parecem mandar? Não estamos em perigo de nos tornar escravos da compulsão do consumo? Não nos angustia nossa incapacidade de ser o que deveríamos ser? Não ansiamos por ajuda eficaz?A promessa divina nos convida a admitir nossos temores e abrir-nos para a esperança que Deus mesmo gera.

O Criador do inimaginavelmente vasto universo veio a nós em seu Filho e se oferece para amparar-nos com seu poder gracioso e imensurável. No abrigo da sua mão vitoriosa sobre diabo, pecado e morte (1Co 15) estamos a salvo de todas as angústias. Por meio de Jesus Deus definitivamente manifestou sua ajuda vitoriosa.

Assim o lema bíblico para 2013 não é um adendo, mas a palavra norteadora para nosso ser, participar e testemunhar e quer moldar nossa vivência comunitária.                                                        

P. Martin Weingaertner, Curitiba – prweingaertner.martin@gmail.com 

Contato: joelschlemper@gmail.com

5 de fev. de 2013

Edição 7 - A fé cristã e o carnaval



A FÉ CRISTÃ E O CARNAVAL

Festas semelhantes ao Carnaval podem ser encontradas em todas as culturas, desde a antiguidade. Geralmente, eram festas populares, vinculadas aos cultos de fertilidade, mediante os quais se apresentavam agradecimentos aos deuses pela colheita e pelos frutos da terra. Eram festas em que geralmente os valores e preceitos morais eram “relaxados” e onde as pessoas tinham mais “liberdade” de ser e fazer o que quisessem. O Carnaval, contudo, foi assumindo a forma atual a partir da Idade Média, quando a Igreja instituiu as celebrações da Semana Santa. Por isto, o Carnaval (como a Páscoa) é uma festa móvel: ele sempre acontece 47 dias antes da Páscoa. Como a Páscoa é fixada para o Domingo após a primeira lua cheia depois do equinócio da Primavera (no hemisfério Norte), o Carnaval ocorre 47 dias antes, numa Terça-feira (chamada: Terça Gorda!). Isto porque no dia seguinte começa a Quaresma, que é um período de jejuns e de mortificação, onde a sociedade deixa de lado os prazeres da carne, e se prepara espiritualmente para a celebração da Páscoa. Por isso, Carnaval vem do latim: carni valles = prazeres da carne! Por esta razão, a festa foi assumindo a sentido de uma “liberação total dos prazeres da carne”, um vale tudo, já que depois disso teria que se abandonar esses prazeres.

Poderíamos fazer uma longa análise destas coisas em nossos dias. Fato é que vivemos numa sociedade “líquida”, onde não se sabe mais o que é certo e o que é errado, e cada vez mais as pessoas precisam das festas para sobreviver. E o carnaval é a supra-sumo delas no Brasil. As cores, a música, a dança, as fantasias e a liberdade, especialmente sexual, em muitos casos reprimida durante o ano, tornam o carnaval o evento mais popular do nosso país. As pessoas precisam de espetáculo, de injeções de cores, quando a vida não passa de uma grande variação de tonalidades de cinza. Vivemos numa Sociedade do Espetáculo, como a definiu Guy Debord, que cria uma sede artificial nas pessoas, que se rendem a ela, pois não encontram outras razões existenciais para enfrentar um cotidiano cinza demais para se viver... Sociedade que coisifica as pessoas, para satisfazer seu lucro, sua ganância.

Deus nos dá outra razão para viver. Pela fé em Cristo, temos uma nova vida, e encontramos uma razão para nossa existência. Ele nos liberta das paixões e dos prazeres da carne, para que tenhamos uma vida plena, em que não somos sujeitos e escravos de nada. Não mais lutamos segundo a carne (2 Cor 10.3), nem mais lhe somos devedores (Rm 8.12), pois ela foi crucificada com Cristo (Gl 5.24).

A fé cristã, contudo, não é contra festas!O evangelho não proíbe a alegria (Jo 15.11). Pelo contrário, ele nos devolve a alegria, ele tira a vida do “cinza” e a torna muito alegre... Não é possível imaginar uma VIDA PLENA (Jo 10.10), como Deus a deseja para nós, desprovida de alegria, gozo, celebração e festa! Será que a Igreja tem falhado em mostrar esta face da fé cristã para o mundo? Somos felizes 365 dias por ano. Somos livres, e não dependemos do Carnaval para nos “extravasarmos”. Quem vive uma vida com Deus está louco mesmo para “extravasar” a paz, o amor e a alegria que encontrou no seu Criador. Temos muitos motivos para celebrar. Façamos isto, sendo livres, alegres, curtindo a vida e o amor eterno que nós conhecemos em Jesus! Aleluia!

                                                        P. Rui Petry – Florianópolis, SC

22 de jan. de 2013

Edição 6 - Pecado existe? E daí? (Estudo sobre a Santa Ceia)


PECADO EXISTE? E DAÍ?
(Estudo sobre a Santa Ceia)


Nossa sociedade aboliu o pecado da sua linguagem, enquanto que a mídia insiste em declarar os direitos individuais e o quanto merecemos a “felicidade” neste mundo. Como então explicar tanta violência, corrupção, falta de ética, etc? Não há limites para essa cultura de direitos? Acreditamos, sinceramente, que merecemos felicidade a qualquer preço? A felicidade é comprável? A Bíblia apresenta um espaço de acolhimento para quem reconhece o mal (que chama de pecado) com suas consequências e a solução para uma infelicidade crescente. Trata-se da Ceia do Senhor.
Em 1 Coríntios 11.27-28 Paulo afirma que participa dignamente nessa Ceia quem reconhece seus pecados e tem disposição de abandoná-los. Adverte que a pessoa que não admite ser pecadora ou que não se arrepende dos seus pecados encara a Ceia do Senhor com falsidade, como Judas Iscariotes. Quando participamos honestamente da Ceia, afirmamos que precisamos de Jesus por causa da sujeira do pecado, e não por estarmos limpos pelo nosso esforço de arrependimento. Portanto, isso é dádiva do Senhor e não obra humana.
Assim, a confissão dos nossos pecados e o arrependimento, como a fé em Jesus Cristo, são fundamentais no processo de nos tornarmos discípulos dele (Mc 1.15). Porém, com isso não deixamos de ser pecadores. Antes de crer em Jesus, éramos pecadores perdidos.  Agora somos pecadores acolhidos/salvos. Como tais, cremos na Palavra de Deus que lemos em 1 João 1.9.
O apóstolo Paulo faz uma comparação da Ceia (1 Co 10.3s) com o maná no deserto, descrito no Antigo Testamento.  Já naquela vez, Deus era o doador e a dádiva ao mesmo tempo. Por isso Jesus chama a si próprio de o verdadeiro maná, o pão da vida, o pão do céu. O que aqueles tinham em figura e sombra, nós temos como realidade: o grande alimento da alma, o corpo e o sangue de Cristo. A Ceia do Senhor também é chamada de Eucaristia, Sacramento do Altar ou Santa Ceia. Em João 6.56 lemos as seguintes palavras de Jesus: “Todo aquele que come a minha carne e bebe o meu sangue permanece em mim e eu nele”. Assim, na Ceia expressamos a nossa união com Cristo. É a fé no sacrifício de Jesus por nós que recebe esse presente dado por Deus.
         Para o reformador Lutero, a Ceia consiste na remissão e perdão dos pecados de quem  aceita o sacrifício de Jesus. Nela Deus nos dá salvação. Assim como no batismo o poder não está na água, na Ceia não está no comer o pão e beber o vinho ou simplesmente suco de uva, mas sim nas palavras: "Dado e derramado em favor de vocês para remissão dos pecados". Calvino declara que a Ceia foi instituída pelo Senhor para com ela firmar e selar em nossas consciências as promessas contidas no Evangelho. Ele nos faz participantes do seu corpo e de seu sangue para reconhecermos sua grande bondade, louvá-lo e magnificá-lo e ainda, nos exorta a toda santidade e inocência, porque somos feitos membros de Jesus Cristo.
Pela concepção de confissão luterana: na Ceia recebe-se Cristo por inteiro, com todos os benefícios do seu sacrifício. Ao fazê-lo, torna presente a eficácia deste sacrifício, desde a criação até o retorno dele. A ceia representa a comunhão com Cristo (1 Co 10.16) e fomenta a comunhão entre os irmãos. A participação na Ceia nos coloca num compromisso solidário na defesa da vida criada por Deus. Jesus instituiu a Ceia dando graças.  Portanto, ao celebrá-la também devemos manifestar alegria, gratidão e louvor pelo perdão e a remissão dos pecados. Através da Ceia celebramos e nos apropriamos da obra do Senhor. Se somos perdoados e reconciliados com Deus, também somos estimulados e exortados a agir de forma igual com o nosso próximo. Enfim, na Ceia vivenciamos uma mistura de sentimentos: tristeza pelos nossos pecados, disposição para a mudança, gratidão pelo perdão, celebração e alegria pela misericórdia de Deus em Jesus, comunhão com Cristo, perdão e compromisso com o próximo e expectativa pelo banquete celestial.

                                                        Airton Härter Palm



15 de jan. de 2013

Edição 5 - Sacerdócio real de todos os crentes


SACERDÓCIO REAL DE TODOS OS CRENTES

         No decorrer da Idade Média, a igreja cristã na Europa organizou-se em paróquias. Esta estrutura perdurou por mais de um milênio com igrejas edificadas no centro de vilas e cidades e com a vida de sua população gravitando em torno delas.

         Este modelo de igreja não foi modificado pela Reforma do século XVI. Assim o encontramos tanto na Rússia ortodoxa, na Itália católica, na Inglaterra anglicana, na Suíça presbiteriana como na Alemanha luterana. Ele alicerçava-se a divisão entre clero e leigos. As diferentes confissões não alterariam o fato básico de que em todas elas o clero “produz espiritualidade” e leigos a “consomem” (MALM, Magnus, Vägvisare, 2a ed, 1991,26s.). Isto prestigiava os 'reverendos' e era normal eles serem convidados como “autoridades religiosas” para solenidades.

         Entrementes, porém, este cenário mudou. As igrejas ainda continuam nas praças centrais, mas já não desempenham o papel de outrora. Quanto maior a cidade, mais adiantada a sua marginalização. Os shoppings e outros espaços de lazer e consumo tomaram o seu lugar. Os pastores e padres, quando muito, são “reverendos” para as suas congregações. O pluralismo cultural e religioso faz com que uma infinidade mensagens concorram com seus sermões dominicais.

         Nesta progressiva corrosão do modelo paroquial, pastores e padres se veem cada vez mais expostos a uma “opressão da performance” (EGG, Tuco, Igreja entre aspas, 2011, p.42): diante do encolhimento do público nas celebrações eles são cobrados para fazer a igreja navegar de vento em popa como outrora. E isto gera desencanto, stress e frustração.

         Será que a Reforma iniciada com Martinho Lutero nos pode ensinar algo neste ambiente acuado?

         Os reformadores viviam em outro tempo e enfrentaram outras dificuldades. Por isso as propostas deles não respondem necessariamente a nossas perguntas e angústias. Mesmo assim, vale a pena sondar se o seu horizonte não se comunica em algum ponto com o nosso. Podemos ousar fazê-lo, porque o Deus trino continua o mesmo. Por dependermos do mesmo evangelho da graça de Jesus Cristo, podemos e devemos procurar aprender das suas testemunhas no passado.

         Lutero é muito elogiado pelo que ensinou do sacerdócio geral dos crentes. Mas isto praticamente ficou sem efeito por permanecer na sombra da pesada herança paroquial. Na prática, também as igrejas evangélicas continuaram divididas em duas classes de cristãos – clero e leigos – e, por isso, esqueceram o que o reformador concluíra do evangelho.

         Agora, porém, que o modelo paroquial vai-se esvaindo, redescobrimos que, ao insistir o sacerdócio de todos os crentes, Lutero, na verdade, questionou a legitimidade da segmentação da igreja em clero e leigos:

Se perguntas qual seria, então, a diferença entre os sacerdotes e os leigos na cristandade, se todos são sacerdotes, a resposta é: cometeu-se uma injustiça com as palavras “sacerdote”, “cura”, “religioso” e outras semelhantes, quando o povo em geral foi delas excluído, para serem atribuídas a um pequeno grupo … A Sagrada Escritura não conhece nenhuma outra distinção do que aquela de nomear os instruídos e ordenados como … servidores, servos e administradores – , cuja missão consiste em pregar à demais pessoas Cristo, a fé e a liberdade cristã.” (LUTERO: Da Liberdade Cristã, 5a ed., 1998, p.25s.)

         O motivo de Lutero considerar esta divisão entre leigos e clero uma “injustiça” reside na justificação por graça: quem foi resgatado do pecado pela morte e ressurreição de Jesus participa do reinado e do sacerdócio dele. Jesus foi elevado à direita de Deus e se tornou Senhor de “céus e terra” (Mt 28.18s.; Fp 2.9ss.). Por seu sacrifício ele – como o verdadeiro sacerdote – intercede (cf. Hb 8-9) por nós diante do Pai e nos ensina o seu amor gracioso. Portanto, quem crer nele participa deste senhorio e sacerdócio. Ninguém jamais poderá privá-lo do amor de Deus (Rm 8.28ss.). Todo crente tem acesso direto ao trono da graça e, por isso, pode interceder e ensinar seus irmãos. Assim Jesus, o único mediador (1Tm 2.5), capacita e envia todos seguidores seus para levarem o evangelho mundo afora.

         Nesta participação do senhorio e do sacerdócio de Jesus reside a liberdade cristã. Mesmo sem modificar a estrutura paroquial, Lutero não deixa margem para dúvidas: a missão de “pregar a demais pessoas Cristo, a fé e a liberdade cristã” é dever de cada cristão. “Pois num caso destes um cristão  enxerga em amor fraternal a necessidade das pobres almas em perigo, e não espera que... bispos lhe deem ordem ou cartas. Porque a necessidade rompe todas as leis e não tem lei.” (LUTERO: Pelo Evangelho de Cristo, 1994, p. 198).

         Assim entendo que podemos aprender do Reformador que somos chamados a vivenciar nosso sacerdócio em nossa sociedade secularizada e pluralista. Nesta caminhada é importante observarmos:

         1- Para aprender a testemunhar a fé na sociedade pós-cristã precisamos abrir espaço para compartilhar dificuldades e experiências. Nossos cultos e reuniões precisam tornar-se um lugar de ensino mútuo. Não o aprenderemos com quem não convive no mundo secularizado. Assim encorajados e confiantes no Espírito Santo, ousemos falar do evangelho em nossas casas, no trabalho e onde quer que convivamos com “pobres almas em perigo”.

         2- Quando uma igreja começa a exercitar o sacerdócio geral, também o papel do pastor muda. Ele passa a fazer retaguarda aos que estão na vanguarda, à semelhança do que fez a Dra. Zilda Arns na Pastoral da Criança. Em vez de monopolizar, como pediatra que era, o tratamento de crianças doentes, ela priorizou capacitar agentes de saúde e, assim, reverteu o quadro de mortalidade infantil no Brasil.

         3- Por fim precisamos lembrar que luteranos não são os únicos herdeiros da Reforma. Há outros exercitando-se neste sacerdócio como se pode depreender das palavras de Eliezer Morais, pastor da Assembleia de Deus, num debate na Rádio Gaúcha em Porto Alegre (em 02/07/12): “Proclamamos o que herdamos da Reforma – a salvação somente pela graça, fé e Escrituras –, não clericalizamos a liturgia, trabalhamos com simplicidade, envolvidos com a realidade do povo brasileiro e fazemos com que os fiéis leiam a Bíblia” .
                           
Martin Weingaertner, FATEV, Curitiba
(Para contatar o autor: weingaertner.martin@gmail.com

19 de dez. de 2012

Edição especial de natal


O natal que devolve a vida


         O que realmente aconteceu naquele primeiro natal em Belém? Vejamos: O diabo e o pecado nos roubaram a Vida Eterna. Mas como Deus pôs no coração do ser humano o anseio pela eternidade (Eclesiastes 3.11), eles não conseguem extirpar de nossa alma o desejo pelas coisas eternas. Este anseio produz em nós uma inquietação que nos faz procurar em nós mesmos, em outras pessoas e nas coisas por algo que nos satisfaça e dê sentido à nossa vida. Mesmo sem o saber, buscamos o que mate a nossa sede por eternidade.

         Mas nenhuma pessoa e nenhum objeto nos satisfazem plenamente. É como se uma parede nos separasse da verdadeira vida, produzindo a sensação de que não nos encaixássemos neste mundo.  C. S. Lewis chamou gotas de graça aqueles rumores de transcendência que ele experimentava quando ouvia música, lia mitologia grega ou visitava uma catedral.  E ele concluiu: Se encontro em mim um desejo que nenhuma experiência deste mundo pode satisfazer, a explicação mais provável é a de que fui criado para outro mundo. 

         Para John Piper a tragédia do mundo é que o eco é confundido com o grito que o iniciou. Quando estamos de costas para a beleza fascinante de Deus, fazemos sombra na terra e nos apaixonamos por ela própria. Mas isto não nos satisfaz verdadeiramente. Os livros ou a música onde pensamos estar a beleza nos trairão, se confiarmos neles.  Pois eles não são a coisa em si, eles são somente o aroma de uma flor que não encontramos, o eco de um tom que ainda não ouvimos, notícias de um país que nunca visitamos

         Quando Jesus nasceu, este outro mundo eterno para o qual fomos criados nos visitou e irrompeu para dentro de nosso mundo finito: E o Verbo se fez carne e habitou entre nós, cheio de graça e de verdade, e vimos a sua glória, glória como do unigênito do Pai.  (João 1.14). Somente quando permitimos que Jesus – o Verbo Eterno – nos encontre em meio à nossa busca louca, nossos anseios pela eternidade são saciados. Somente ele transforma nossa vida e nos devolve a Vida Eterna. Como expressou Agostinho: Fizeste-nos para Ti, e inquieto está o nosso coração, enquanto não repousa em Ti.

P. Sigolf Greuel



12 de dez. de 2012

Edição 4 - Somos Igreja Evangélica de Confissão Luterana no Brasil


Somos Igreja Evangélica de Confissão Luterana no Brasil

Nesta edição do Luteranos em Movimento encerramos a reflexão sobre o significado de sermos Igreja Evangélica de Confissão Luterana no Brasil. Sendo assim, abordaremos a expressão “no Brasil” no nome da denominação.

Em primeiro lugar, ela revela nossa origem estrangeira. As primeiras comunidades luteranas foram fundadas no Brasil em 1824, em Nova Friburgo (RS) e São Leopoldo (RS), respectivamente. Diferente de outras denominações protestantes no Brasil, o surgimento destas comunidades luteranas não resultou do envio intencional de missionários para evangelizar os brasileiros. Antes, resultou do processo imigratório de europeus empobrecidos que vieram motivados pelas promessas de concessão de terras do governo brasileiro.

         Inicialmente a imigração foi vista como solução para a colonização e povoamento de extensos territórios vazios no Brasil imperial. Com a crescente necessidade de mão-de-obra para a lavoura cafeeira e a pressão internacional contra o tráfico negreiro, grandes levas de imigrantes também foram trazidos para trabalhar na agricultura.

Entre os imigrantes havia suíços, belgas e, principalmente, alemães. Muitos deles eram luteranos e alguns reformados. O governo brasileiro instalou-os em colônias, territórios ainda “não ocupados”, nos quais houve muitos conflitos com índios. Há inúmeros relatos de assassinatos tanto de colonos quanto de índios em função dessa política agrária desastrada. A organização destas colônias, por si só, isolou os imigrantes. Outro fator  do isolamento social foi a Constituição de 1824 que declarava o Catolicismo Romano como religião oficial do Império. Assim, os colonos evangélicos eram proibidos de construir templos, embora não, de realizar cultos. Um terceiro fator de isolamento foi estabelecerem-se comunidades cristãs a partir de uma cultura de atendimento, ou seja, de pastores enviados da Alemanha para atender exclusivamente os imigrantes.

As igrejas fundadas nesse processo imigratório passaram a colaborar umas com as outras, formando-se quatro sínodos luteranos no Brasil: o Sínodo Riograndense (1886), o Sínodo Evangélico Luterano de Santa Catarina, Paraná e outros Estados (1905), o Sínodo Evangélico de Santa Catarina (1911) e o Sínodo das Comunidades Evangélicas Alemãs do Brasil Central (1912). Em 1949 estes sínodos formaram uma Federação Sinodal e finalmente, no ano de 1962 esta adotou o nome de Igreja Evangélica de Confissão Luterana no Brasil.

Olhando para esta história também somos lembrados da nossa dívida evangelizadora com o país. As circunstâncias históricas fizeram-nos desenvolver uma cultura de gueto, formatando uma igreja com marcas culturais homogêneas, étnica definida. A palavra “missão” não fez parte das nossas raízes, da nossa origem histórica; não está em nosso “DNA comunitário”. Em vista disto a expressão “no Brasil” do nome, lembra-nos de que somos igreja de Jesus Cristo neste país, para todas as pessoas que aqui vivem. Eis um grande desafio a superar!

Alguns passos já foram dados, mas há uma longa jornada a percorrer nesse horizonte missionário. Termino citando o meu exemplo: sou pastor luterano no interior de Goiás. Como nossa igreja chegou aqui? Através do fluxo migratório de sulistas que vieram em busca de terras para desenvolver a agricultura. Nosso caso é sintomático. É esse processo histórico que explica a presença da nossa igreja em todo Mato Grosso, Amazônia e grande parte do Brasil Central. É chegada a hora de nós luteranos plantarmos comunidades que sejam fruto de nossa intencionalidade missionária, que sejam resposta de nossa IECLB ao chamado de Jesus Cristo para nós neste país. Mãos a obra!

P. Daniel Schorn


Grupo de trabalho para o Boletim Virtual de Formação Cristã
P. Joel Schlemper – São José, SC
P. Daniel Schorn – Chapadão do Céu, GO
P. Dilmar Devantier – Palhoça, SC
Miss. Airton Palm – Curitiba, PR
P. Joelson Martins – São José, SC
P. Leandro Ristow – Maravilha, SC
Miss. Rodomar Ramlow – Pelotas, RS
P. Sigolf Greuel – Florianópolis, SC
P. Martin Weingaertner – Curitiba, PR
P. Wilhelm Sell – Palhoça, SC
P. Tiago Winkel – Presidente Getúlio, SC