17 de ago. de 2013

Edição especial – Manifesto pela fidelidade ao Evangelho - Declaração dos Obreiros do ME

16 de agosto de 2013

CHAMADOS À FIDELIDADE AO EVANGELHO
Uma igreja da reforma sempre vive em reforma

Somos profundamente gratos a Deus pela vocação com a qual ele nos agraciou e através da qual ele nos chama para sermos dele e para ele. Somos igualmente gratos que esta acolhida de Deus acontece na vida em comunidade e temos o privilégio de vivê-la no âmbito da Igreja Evangélica de Confissão Luterana no Brasil (IECLB), à qual pertencemos, na qual atuamos e com cuja profissão de fé nos identificamos (Constituição da IECLB art. 5º).  Ela aponta para a graça em Cristo que é recebida em fé, está baseada nas Escrituras, é vivida em comunidade e se expressa no testemunho e na vida em sociedade.

Como herdeiros da reforma, afirmamos e praticamos o sacerdócio geral de todos os crentes. Por isso buscamos engajar os membros do corpo de Cristo no serviço na igreja de acordo com os dons que receberam do Espírito Santo. Afirmamos o serviço missionário e diaconal como forma de viver e proclamar o evangelho integral.

Ao vivermos a nossa vocação no âmbito da IECLB, percebemos sinais que nos preocupam e para os quais queremos chamar a atenção. Ainda que inconformados com isto, reiteramos nosso compromisso com o testemunho de fé dos reformadores (Catecismo Menor e Confissão de Augsburgo). Queremos buscar por espaços para viver esta convicção de fé e chamar a igreja a voltar para ela.

Entre as nossas preocupações, destacamos os seguintes aspectos:

 1.  Vivemos numa igreja que está se apequenando e se tornando irrelevante no contexto religioso e social brasileiro;
2.  Estamos preocupados com a aceitação do ensino de que muitos caminhos levam a Deus, ou seja, que nega a exclusividade de Cristo;
3.  Percebemos que se vivencia hoje na igreja uma relativização da autoridade das Escrituras;
4.  Apontamos também para a relativização da ética que desestrutura e desfigura especialmente a família. Este cenário gera posições confusas e até ambíguas na IECLB quanto à sexualidade humana. Estas, por sua vez, se refletem na insegurança e incapacidade de comunidades e ministros tratarem a crise do casamento e da família;
5.  Experimentamos um desempoderamento das nossas comunidades locais e, ao mesmo tempo, uma centralização que coloca as comunidades a serviço da estrutura e as cerceia, bem como seus ministros, em torno de uma uniformidade de atos, gestos e ritos;
6.  Inquieta-nos a crise vocacional e missionária na igreja.

À luz destes sinais preocupantes que descaracterizam nosso próprio jeito histórico de ser igreja evangélica, reafirmamos a nossa fé e gestamos um renovado compromisso em torno das seguintes afirmações:

1.  Cremos que Cristo é o caminho, a verdade e a vida, a revelação definitiva e suficiente de Deus (João 14.6);
2.  As Escrituras são a nossa norma de fé e vida e de ministério, que se interpreta a si mesma, assim como afirmado pelos reformadores (1Coríntios 15.3-4);
3.  A fé cristã se vive em comunidade fraterna que recebe e interpreta a Palavra, e, ainda que formalmente autônoma, vive em parceria com outras comunidades irmãs e serve a Deus em seu contexto (Filipenses 2.1-4);
4.  A fé é dom gracioso de Deus que implica em obediência individual e coletiva. Cada cristão é chamado a obedecer ao mandamento de Deus em todos os âmbitos de sua vivência (Gálatas 5.24). No âmbito comunitário cremos que a obediência produz uma prática missionária de natureza evangelística e diaconal (Atos 1.8).

Nós cremos que a Igreja precisa estar constantemente comprometida com a vivência e pregação do Evangelho que gera uma igreja contextualizada, aberta e acolhedora.

Encontro de Obreiros do Movimento Encontrão
Florianópolis, 14 de agosto de 2013

6 de ago. de 2013

Edição 19 - É preciso explicar nossa fé! - Confissão de Barmen - Artigo 2

06 de agosto de 2013

É preciso explicar nossa fé!
O segundo artigo da Confissão de Barmen
De acordo com o diagnóstico, o remédio. Quando se tratam dos males do mundo, já foram elaboradas muitas receitas que prometeram a solução. No tempo da elaboração da Confissão de Barmen o ateísmo reinante foi um solo fértil para a ideologia nacionalista de Hitler apresentar-se como tábua de salvação para a Alemanha. O “salvador” afirmava que o problema era os judeus exploradores, além de deficientes físicos ou mentais, numa lista gigantesca de pessoas que não se enquadravam no padrão da nova ordem mundial ariana. O comunismo, só para citar outro exemplo ideológico, afirmava que o problema do mundo era o capital, a luta de classes e a propriedade privada. Em nome da solução, os opositores do sistema foram mortos e perseguidos.
Toda ideologia interpreta o problema do mundo com uma proposta de solução. Elas até percebem corretamente alguns aspectos dos males do mundo, mas nenhuma é completa e definitiva. E a razão é muito simples: elas pressupõem que o ser humano é bom e, por isto, não levam realmente a sério o que a Bíblia chama de pecado. Assim projetam o problema do mundo para fora do ser humano ou culpam apenas um grupo humano, ou ainda o limitam a alguns aspectos da natureza humana.
Como cristãos, não somos apolíticos, não hostilizamos as ideologias ou nem ignoramos os conflitos da atualidade. Nós apenas temos certeza de que a sabedoria de Deus se revelou em Cristo. Ele faz o diagnóstico apropriado e é o verdadeiro e definitivo remédio para nossas chagas. Somos conscientes de que a solução para nós veio de Deus, por meio de Cristo. Por isto entendemos que todo movimento político-ideológico (e também religioso) sempre emperrará em função do pecado humano. E isso não desestimula o envolvimento social ou a participação política, mas constata com sobriedade que todo movimento humano é relativo. É a garantia de que não faremos do nosso movimento, partido, ideologia ou religião um instrumento de fanatismo. Quem remove Cristo e sua obra do centro do seu agir no mundo, não enxerga o verdadeiro problema do ser humano. Ao fazer isso, torna absoluta uma causa relativa.
As propostas de soluções para os problemas atuais levam em consideração a solução de Deus revelada em Cristo por meio da sua Palavra? Veja o que diz o segundo artigo da Confissão de Barmen:
“Jesus Cristo se tornou sabedoria de Deus para nós, isto é, justiça, santidade e redenção” - 1 Co 1.30
“Assim como Jesus Cristo é o anúncio divino do perdão de todos nossos pecados, assim e com igual seriedade ele é a vigorosa reivindicação de Deus sobre toda a nossa vida; por meio dele experimentamos alegre libertação das amarras ateias deste mundo para o serviço livre e grato à suas criaturas.
Condenamos a falsa doutrina de que existem áreas em nossa vida nas quais fossemos propriedade não de Jesus Cristo, mas sim de outros senhores, e nas quais não necessitássemos da sua justificação e santificação.”
Como cristãos precisamos nos perguntar se já não fomos invadidos pelo espírito de nossa época e se não absorvemos a ideologia dominante sem questionamentos.
- Que movimentos ideológicos em nossos dias abdicam da obra de Cristo na cruz e se apresentam como solução para nossa sociedade? Quem são suas vítimas?
- De que áreas da nossa vida excluímos o perdão e da santificação de Jesus Cristo?
- Quem determina nossos hábitos de consumo? Será Jesus Cristo ou serão outros senhores? A quem prestamos contas do uso dos nossos recursos financeiros?
Daniel Schorn – Orleans, SC



Editorial: O Boletim Virtual  Luteranos em Movimento é organizado por um grupo de ministros da IECLB e tem por objetivo a reflexão e a Formação Cristã Continuada para dentro da igreja de Jesus.
A edição é quinzenal e pode ser usado tanto para a reflexão pessoal como em grupos de estudo.
É livre para distribuição.

23 de jul. de 2013

Edição 18 - É preciso explicar nossa fé! - Confissão de Barmen 1

23 de julho de 2013

É preciso explicar nossa fé!

            Quando Jesus ressuscitou, os discípulos tiveram certeza de que ele era o Messias prometido aos profetas. Mas ao proclamá-lo pelo Império Romano afora, tiveram que explicar isso a quem não fazia ideia do que era o messias. Ousaram, então, anunciar Jesus com o mesmo título do imperador romano, ou seja, “Senhor”. Este se entendia como autoridade suprema do mundo e exigia ser adorado como deus. A confissão de que “Jesus é Senhor” questionava isto, pois lhe atribuía o domínio sobre céus e terra. O imperador era respeitado, sim, mas como servo de Deus (Romanos 13). Este testemunho orientou os cristãos por séculos e lhes rendeu não pouca perseguição.

Assim, em cada época os cristãos foram desafiados a explicar a boa nova de Jesus Cristo, confessando-a ousadamente. Em 1530, príncipes evangélicos entregaram ao imperador alemão a “Confissão de Augsburgo”, na qual declararam a verdade divina frente aos equívocos do seu tempo.

         O século 20 foi marcado por duas ideologias, o nazismo e o comunismo. Ambas tentaram cooptar e enquadrar tudo e todos no seu sistema de pensamento, perseguindo e aniquilando quem não se sujeitasse a elas.  Logo no início do regime nazista, alguns cristãos na Alemanha perceberam sua incompatibilidade com a fé em Jesus. Então, em 1934, numa reunião em Barmen, eles professaram a fé numa declaração de seis teses. Todas elas iniciam com a menção do fundamento bíblico e são seguidas por uma afirmação positiva e uma condenação da falsificação ideológica.

         Estas palavras orientaram muitos cristãos em sofrimentos e perseguição pelos anos que o regime nazista duraria. Nas próximas edições deste Boletim, pretendemos refletir sobre elas. Os desafios que nos cercam certamente são outros, mas com seu testemunho podemos aprender como viver e explicar o evangelho hoje.

Primeira tese da Confissão de Barmen
Eu sou o caminho, a verdade e a vida. Ninguém vem ao Pai, a não ser por mim” (João 14.6) – “Eu lhes asseguro que aquele que não entra no aprisco das ovelhas pela porta,mas sobe por outro lugar, é ladrão e assaltante. ... Eu sou a porta; quem entra por mim será salvo. Entrará e sairá, e encontrará pastagem”. (João 10.1, 9)
Jesus Cristo, tal qual é testemunhado na Sagrada Escritura, é a única palavra de Deus que devemos ouvir, na qual devemos confiar e à qual devemos obedecer na vida e na morte.
Condenamos a falsa doutrina de que a igreja possa e deva reconhecer como fonte da sua proclamação, além e ao lado desta palavra única de Deus, ainda outros acontecimentos, poderes, personagens e verdades como revelação de Deus.

         Vale a pena ler e reler este breve enunciado e meditar sobre ele. O roteiro de perguntas a seguir quer ajudar a aplicá-lo ao contexto em que nós vivemos:

         1. Jesus é, de fato, a “única palavra de Deus” para nós?
         2. Estamos dispostos a confiar em Jesus e obedecer-lhe “na vida e na morte”?
3. Que “acontecimentos, personagens ou verdades” fazem concorrência a Jesus na nossa vida?
4. Que atitudes precisamos tomar no âmbito em que convivemos para corresponder ao que Deus revelou em Jesus?


Martin Weingaertner

Editorial: O Boletim Virtual  Luteranos em Movimento é organizado por um grupo de ministros da IECLB e tem por objetivo a reflexão e a Formação Cristã Continuada para dentro da igreja de Jesus.
A edição é quinzenal e pode ser usado tanto para a reflexão pessoal como em grupos de estudo.
É livre para distribuição.


12 de jul. de 2013

Edição 17 - Princípios e Valores da Família

10 de julho de 2013

Princípios e Valores da Família

Deus criou homem e mulher segundo a sua própria imagem. Uma pessoa, enquanto indivíduo é imagem de Deus. Um casal, no entanto, é ainda mais completo nessa questão. Criou Deus o homem à sua imagem, à imagem de Deus o criou; homem e mulher os criou (Gênesis 1.27). Em outras palavras, Deus nos criou macho e fêmea. Não se trata, portanto, apenas de uma questão religiosa qualquer quando defendemos o casamento e a união heterossexual, mas de uma questão inata à nossa natureza. É desta união que é possível a ordem seguinte do “crescei e multiplicai-vos”. E aqui se engana quem acha que estamos defendendo a relação sexual apenas para procriação.

A família é criação de Deus e é a única e mais elevada organização dos relacionamentos humanos. Reconhecer isso é perceber na família o seu propósito divino que é contrário à poligamia, à prostituição, ao divórcio, ao adultério, à homossexualidade, à esterilidade e à falta de diferenciação dos papéis de homem e mulher. É claro que os nossos filhos não serão criados numa redoma. Eles terão amigos, irão á escola, estarão em contato com a cultura à sua volta. E é assim que deve ser. No entanto, a maneira como eles se relacionarão com esta realidade, o quanto influenciarão ou serão influenciados, dependerá da base recebida no núcleo familiar em que crescem e são educados.

Uma família nasce do vínculo sagrado entre um homem e uma mulher. O homem deixará pai e mãe e se unirá à sua mulher, e eles se tornarão uma só carne (Gênesis 2.24). Não se trata de mera convenção social. Não é apenas um aspecto cultural a ser respeitado ou tolerado. O que é eterno é eterno. O que está instituído na criação pede, no mínimo, bom senso. No entanto, existem apenas duas opções: a obediência à vontade promulgada por Deus ou a desobediência, mesmo que este segundo caminho possua diversos desdobramentos e possibilidades. Mas, isso não muda o fato de que continua sendo pecado, é errar o alvo, é rebelião, é a busca por viver segundo a minha própria vontade mesquinha, egoísta e autorreferente. Os resultados desse tipo de rebelião podem ser vistos por toda parte. E não será o investimento em educação, o crescimento econômico, a construção de mais presídios, etc., que resolverão o problema da delinquência, das drogas, do álcool e da violência em geral. Isso somente será possível mediante o arrependimento sincero diante de Deus e a busca e submissão ao padrão de Deus para a sociedade edificada sobre a célula familiar.

Avaliemos as nossas crenças e práticas. Está na hora de voltarmos aos valores, princípios e padrões divinos para viver, não como insensatos que confiam em si mesmos, mas como sábios que buscam no Senhor a edificação de suas vidas!  Como é feliz aquele que não segue o conselho dos ímpios, não imita a conduta dos pecadores, nem se assenta na roda dos zombadores! Ao contrário, sua satisfação está na lei do Senhor, e nessa lei medita dia e noite (Salmo 1.1-2).

Miss. Rodomar Ricardo Ramlow – Pelotas, RS
  

  
Contato:  P. Joel Schlemper


Editorial: O Boletim Virtual  Luteranos em Movimento é organizado por um grupo de ministros da IECLB e tem por objetivo a reflexão e a Formação Cristã Continuada para dentro da igreja de Jesus.
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26 de jun. de 2013

Edição 16 - O batismo que aponta para o Evangelho

26 de junho de 2013

O batismo que aponta para o Evangelho

Há pouco tempo atrás o GPS não era acessível à maioria das pessoas. Em virtude disto, os viajantes eram guiados pelas placas que os levavam ao destino desejado. Ainda hoje as placas apontam a direção que nós devemos seguir para uma viagem tranquila. Da mesma forma como as placas indicam o caminho, também o batismo quer nos levar ao único caminho, verdade e vida. Fora disto, estamos nos enganando, ou, ainda, assumindo o risco de tomarmos caminhos que nos deixarão perdidos.

Isto fica claro quando lemos o Novo Testamento e encontramos poucas ocorrências a respeito do batismo. Afinal, o batismo não testemunha de si mesmo, mas está a serviço do Evangelho, apontando para Cristo, ou seja, o batismo deve servir a Cristo, apontando para sua morte e ressurreição e nos inserindo na mesma (Rm 6.5), para que andemos em novidade de vida.

Aprendemos isto do próprio Cristo quando olhamos para o final do Evangelho de Mateus, capítulo 28, versículos 19 e 20, texto conhecido como “A Grande Comissão”.

“Ide, portanto, fazei discípulos de todas as nações, batizando-os em nome do Pai, e do Filho, e do Espírito Santo; ensinando-os a guardar todas as coisas que vos tenho ordenado. E eis que estou convosco todos os dias até à consumação do século.”

Nas palavras do Cristo ressuscitado enxergamos nitidamente qual o papel daqueles que aguardam sua vinda, a saber, o chamado ao discipulado no dia-a-dia, uma vida guiada por Deus. Nisto podemos atentar para as 4 partes destes versículos.

Cristo não manda que criemos membros, fiéis ou pessoas batizadas, ele pede por discípulos de todas as nações! O exemplo de fazer discípulos é dado pelo próprio Jesus ao longo de seu ministério. Discipulado é o confronto com a realidade e o convite para olhar ao seu redor com os olhos de quem já enxerga a eternidade em fé. Os discípulos devem se multiplicar e alcançar todos os povos, esta é a missão da Igreja, ir além de seus muros e barreiras confessionais, fazendo discípulos de Cristo ainda hoje.

Tais discípulos devem ser batizados. Há quem creia que batismo nada mais seja que um mero “jogar aguinha na cabeça”. Quem pensa desta forma, despreza a ordem de Cristo de que o batismo faz parte do discipulado. A fórmula usada no Evangelho de Mateus ainda hoje é empregada, e desta forma a pessoa batizada é entregue sob os cuidados do Trino Deus. A pessoa pertence a Ele. Isto se desdobra no testemunho diário. A diferença deste batismo para o de João Batista é que agora o próprio Jesus faz parte dele e os que agora são batizados morrem com Cristo e erguem-se com Ele para uma vida nova (Rm 6.1ss).Sendo assim, batismo não é mero ato formal, mas compromisso com o Cristo morto e ressurreto, batismo é discipulado, caso contrário torna-se juízo sobre os que em vão usam o nome de Cristo.

Todo discípulo batizado deve ser instruído e aperfeiçoado. Em outros termos, viver Cristo no cotidiano é aprofundar-se por meio de Sua palavra: pelo ensino, exortação e consolo enquanto aguarda a volta dAquele que nos prometera o Consolador.

No caminho do discipulado certamente enfrentamos dificuldades e situações adversas. Porém, temos a certeza de que não estamos sozinhos. O próprio Jesus promete estar conosco e desta forma seguiremos, nas palavras de Agostinho “A Igreja avançará, peregrinando entre as perseguições do mundo e as consolações de Deus”.

P. Israel W. Sell – Navegantes, SC

  
 Contato:  P. Joel Schlemper

7 de jun. de 2013

Edição 15 - Aborto


05 de junho de 2013                                                
Aborto

Aborto: uma questão de saúde pública?
A discussão em torno do aborto reaparece de tempos em tempos. Há quem defenda que o aborto não seja mais considerado crime. O argumento é que se trata de uma questão de saúde pública. A razão seria o número elevado de mulheres que morrem em decorrência de abortos clandestinos.
Ninguém apresenta números exatos nem a fonte, o que poderia nos levar a suspeitar dos altos números apresentados Mas, mesmo que os números fossem altos, isso justificaria descriminalizar o aborto? Se o feto é pessoa há algum motivo justificável para matar alguém? Por isso queremos analisar este tema.

O que é aborto?
Mas porque aprovar leis no Brasil que descriminalizem o aborto? Há algum interesse oculto nessa intenção?Como cristãos comprometidos com a Palavra de Deus e o respeito à vida podem se posicionar a este respeito?O que afinal de contas é o aborto?
Aborto é a expulsão ou extração da placenta ou membranas sem um feto identificável, ou com um recém-nascido vivo ou morto que pese menos de 500 gramas ou que tenha menos de 20 semanas. O aborto pode ser espontâneo, quando acontece por causas naturais, ou provocado, quando ocorre por intervenção especial do ser humano.
Legislação brasileira
A legislação brasileira em vigor é uma das mais duras quando trata do tema. O aborto é considerado crime. Contudo, o artigo 128 do código penal, não o pune em duas situações: a) Quando a vida da mãe está em perigo; b) Em caso de estupro. Recentes decisões judiciais autorizaram aborto de fetos sem cérebro. Ao mesmo tempo, o artigo 5º da Constituição garante a todos o direito à vida.

Quando a vida começa?
Uma das grandes perguntas em torno do debate sobre o aborto é: “quando começa a vida?”. Existem basicamente três opiniões:
1)              Os que defendem o início da vida baseados em dados genéticos. Estes entendem que a vida humana inicia no momento da concepção.
2)              Os que acreditam que o feto precisa se desenvolver para só depois ser considerado uma pessoa. Neste grupo estão os que dizem que a vida começa a partir da nidação (12 dias), ou da formação do córtex cerebral (20 semanas), ou a partir da constituição física do feto (21 semanas), ou ainda a partir de sua saída do útero.
3)              Os que afirmam que a vida só pode ser determinada a partir de suas conseqüências sociais.Neste grupo, defende-se a ideia que uma gestação não deveria ser levada adiante se o feto causar problemas sociais. Por exemplo: se a família é pobre e não tem condições de criar mais um filho. Ou se a mãe for uma adolescente e, em função da maternidade, terá que interromper seus estudos.
A Biologia pode nos ajudar a entender quando começa a vida. A vida humana inicia na concepção. Neste momento, já estão definidos sexo, cor dos olhos, cor do cabelo, etc. E isto já o caracteriza como pessoa. O Salmo 139. 14-16 expressa essa verdade: Eu te louvarei, porque de um modo tão admirável e maravilhoso fui formado; maravilhosas são as tuas obras, e a minha alma o sabe muito bem.Os meus ossos não te foram encobertos, quando no oculto fui formado, e esmeradamente tecido nas profundezas da terra.Os teus olhos viram a minha substância ainda informe, e no teu livro foram escritos os dias, sim, todos os dias que foram ordenados para mim, quando ainda não havia nem um deles.
Por isso, é inadmissível o aborto sob o argumento de que o filho prejudicaria os planos da mãe ou provocaria consequências sociais negativas.

O que a Bíblia diz?
A Bíblia não fixa o momento exato do início da vida, nem fala sobre o aborto provocado. A Didaquê (Manual prático dos cristãos do século I) condena o aborto ao dizer: Não farás morrer a criança pelo aborto nem depois de ter nascido. Neste caso, se o feto é uma vida, deve ser protegido. Neste sentido, o quinto mandamento ao dizer Não matarás (Êxodo 20.13) não apenas proíbe matar, mas também nos compromete a proteger a vida, inclusive a que ainda não nasceu.

Cristãos defendem a vida.
Como cristãos não podemos concordar com o aborto. Trata-se de um assassinato no qual a vítima não tem como se defender. Defendemos a vida em qualquer circunstância, porque temos nossa consciência cativa a Deus. Ao mesmo tempo, devemos agir com sensibilidade naqueles casos em que a legislação não pune o aborto. Por exemplo, se a mulher engravidar a partir de um estupro e decidir por não abortar, deve ser apoiada. Por outro lado, se ela decidir pelo aborto igualmente precisa de apoio. Nestes casos extremos, cabe à mulher decidir.

O que podemos fazer para evitar o aborto?
Igreja e Estado precisam se empenhar na defesa da vida, cada qual em seu âmbito. A igreja, além de incentivar e valorizar a família, deve desenvolver ações que promovam a paternidade e maternidade responsável dentro do casamento. Os jovens precisam ser orientados para uma vida casta e decente. Além disso, oferecer espaços para proteger a gestante que, por algum motivo, está desprotegida e desamparada. Deve ajudá-la e ampará-la para que não lhe ocorra, seja por desespero ou por falta de conhecimento, a tentação de interromper uma vida inocente.

P. Joel Schlemper – joelschlemper@gmail.com




Contato:  P. Joel Schlemper

Editorial: O Boletim Virtual  Luteranos em Movimento é organizado por um grupo de ministros da IECLB e tem por objetivo a reflexão e a Formação Cristã Continuada para dentro da igreja de Jesus.
A edição é quinzenal e pode ser usado tanto para a reflexão pessoal como em grupos de estudo.
É livre para distribuição.



21 de mai. de 2013

Edição 14 - Deveríamos apoiar o casamento homossexual?


Edição 14

21 de maio de 2013

Deveríamos apoiar o casamento homossexual?

 Wolfhart Pannenberg*

O amor pode ser pecaminoso? Toda a tradição da doutrina cristã ensina que existe tal coisa como o amor invertido, pervertido. Os seres humanos são feitos para amar, como criaturas de Deus, que é amor. Contudo, essa designação divina é corrompida sempre que as pessoas se afastam de Deus e amam as outras coisas mais do que a Deus.

Jesus disse: “Quem ama seu pai ou sua mãe mais do que a mim não é digno de mim” (Mt 10.37). O amor a Deus precisa ter a precedência sobre o amor aos nossos pais, embora o amor aos pais seja recomendado no Quarto Mandamento.

A vontade de Deus deve ser o guia de nossa identidade e de determinarmos o que somos. O que isso implica para o comportamento sexual pode ser visto no ensino de Jesus sobre o divórcio. Para responder a pergunta dos fariseus sobre a admissibilidade do divórcio, Jesus se refere à criação dos seres humanos. Nessa passagem, Jesus vê a Deus expressando seu propósito para as suas criaturas: a criação confirma que Deus fez os seres humanos como macho e fêmea. Por isso, o homem deixa seu pai e sua mãe para se unir à sua mulher, e os dois se tornam uma só carne. Jesus conclui disso que a permanência indissolúvel da comunhão entre o marido e a esposa é a vontade do Criador para os seres humanos.

A comunhão indissolúvel do casamento é, portanto, o alvo de nossa criação como seres sexuais (Mc 10.2-9). Visto que esse princípio da Bíblia não está limitado a tempo, a palavra de Jesus é o fundamento e o critério para todo pronunciamento cristão sobre a sexualidade, não somente sobre o casamento em especifico, mas sobre toda a nossa identidade como seres sexuais.
De acordo com o ensino de Jesus, a sexualidade humana como macho e fêmea é destinada à comunhão indissolúvel do casamento. Esse padrão dá essência à doutrina cristã a respeito de todo o âmbito do comportamento sexual. No todo, a perspectiva de Jesus corresponde à tradição judaica, embora sua ênfase sobre a indissolubilidade do casamento vá além da estipulação quanto ao divórcio na lei judaica (Dt 24.1).

Os judeus compartilhavam da convicção de que homens e mulheres, em sua identidade sexual, foram planejados para a comunidade do casamento. Isso também explica a avaliação do Antigo Testamento quanto aos comportamentos sexuais que se afastam dessa norma, incluindo fornicação, adultério e relações homossexuais. As avaliações bíblicas da prática homossexual são inequívocas em sua rejeição, e todas as suas afirmações sobre este assunto são concordantes, sem exceção. O Código de Santidade, em Levítico, afirma incontroversamente: “Com homem não te deitarás, como se fosse mulher; é abominação” (Lv 18.22). Em Levítico 20, o comportamento homossexual é incluído entre os crimes que merecem a pena capital (Lv 20.13); é significativo que isso também se aplica ao adultério no versículo 13. Nesses assuntos, o judaísmo sempre se reconheceu distinto das outras nações.

A mesma distinção continuou a determinar a posição do Novo Testamento quanto à homossexualidade, em contraste com a cultura helênica que não via ofensa nas relações homossexuais. Em Romanos, Paulo inclui o comportamento homossexual entre as conseqüências de rejeitar a Deus (Rm 1.27).
Em 1 Coríntios, a prática homossexual é categorizada ao lado de fornicação, adultério, idolatria, avareza, bebedeira, furto e roubo como um comportamento que impede a participação no reino de Deus (1Co 6.9-10). Paulo afirma que por meio do batismo aquelas pessoas foram libertas de seu embaraço em todas essas práticas (1Co 6.11).

O Novo Testamento não contém uma única passagem que possa indicar uma avaliação mais positiva da atividade homossexual para contrabalançar essas afirmações de Paulo.

Assim, todo o testemunho da Bíblia inclui a prática da homossexualidade, sem exceção, entre os comportamentos que expressam, de modo impressionante, o fato de que a humanidade se afastou de Deus. Esse resultado exegético coloca limites bem estreitos no ponto de vista sobre a homossexualidade para qualquer igreja que está sob a autoridade das Escrituras. E as afirmações bíblicas sobre este assunto expressam a conseqüência negativa em relação às opiniões bíblicas positivas sobre o propósito da criação do homem e da mulher, em sua sexualidade. Essas passagens bíblicas que são negativas em relação ao comportamento homossexual não estão lidando apenas com opiniões secundárias que poderiam ser negligenciadas sem prejuízo da mensagem cristã como um todo. Além disso, as afirmações bíblicas sobre a homossexualidade não podem ser relativizadas como expressões de uma situação cultural que hoje está ultrapassada.

Desde o início, o testemunho bíblico se opôs deliberadamente às pretensões de seu ambiente cultural, em nome da fé no Deus de Israel, que na Criação designou o homem e a mulher para uma identidade específica. Os defensores contemporâneos de uma mudança na opinião da igreja a respeito da homossexualidade argumentam constantemente que as afirmações bíblicas desconheciam a importante evidência antropológica moderna. Essa nova evidência, dizem eles, sugere que a homossexualidade tem de ser considerada um constituinte da identidade psicossomática de pessoas homossexuais, completamente anterior a qualquer expressão homossexual correspondente. (Por questão de clareza, é melhor falarmos aqui deinclinação homófila como algo distinto da prática homossexual.) Esse fenômeno ocorre não somente em pessoas que são homossexualmente ativas. Mas a inclinação não precisa ditar a prática. É característico dos seres humanos que nossos impulsos sexuais não estão confinados a determinada esfera de comportamento; eles permeiam nosso comportamento em todas as áreas da vida. É claro que isso inclui os relacionamentos com pessoas do mesmo sexo. Contudo, exatamente pelo fato de que estímulos eróticos estão envolvidos em todos os aspectos do comportamento humano, somos confrontados com a tarefa de integrá-los a toda a nossa vida e conduta.

A existência de inclinações homófilas não leva automaticamente à prática homossexual. Pelo contrário, essas inclinações podem ser integradas numa vida em que elas são subordinadas ao relacionamento com o sexo oposto; e nesse relacionamento a atividade sexual não deve ser o centro todo-determinante da vida e da vocação humana. Como salientou corretamente o sociólogo Helmut Schelsky, uma das realizações primárias do casamento, como instituição, é o seu engajamento da sexualidade humana no cumprimento de tarefas e objetivos ulteriores. Portanto, a realidade de inclinações homófilas não precisa ser negada e não deve ser condenada. Todavia, a questão é como lidar com essas inclinações no âmbito da tarefa humana de dirigirmos responsavelmente nosso comportamento.
Esse é o verdadeiro problema; e, nesse ponto, temos de concordar com a conclusão de que a atividade homossexual é um afastamento da norma quanto ao comportamento sexual que foi dado ao homem e à mulher como criaturas de Deus.

 A igreja deve ter essa postura não somente no que diz respeito à atividade homossexual, mas também a qualquer atividade sexual que não expresse o alvo do casamento entre um homem e uma mulher, em especial, o adultério. A igreja tem de conviver com o fato de que, nesta área da vida, como em outras, afastamentos da norma não são excepcionais, mas comuns e ocorrem em todo o mundo.

A igreja tem de confrontar todos os que estão interessados em tolerância e entendimento, mas também deve exortá-los ao arrependimento. Ela não pode abandonar a distinção entre a norma e o comportamento que se afasta da norma. Este é o limite de uma igreja cristã que se reconhece sujeita à autoridade das Escrituras. Aqueles que instam a igreja a mudar a norma de seu ensino sobre este assunto precisam saber que estão promovendo cisma. Se uma igreja se permitisse chegar ao ponto em que cessaria de tratar a atividade homossexual como um afastamento da norma bíblica e reconheceria uniões homossexuais como companheirismo pessoal de amor equivalente ao casamento, essa igreja não estaria mais firmada no alicerce bíblico; antes, ela estaria contra o testemunho inequívoco das Escrituras. Uma igreja que tomasse esse passo deixaria de ser a igreja una, santa, católica e apostólica [com sentido de "Universal". Originalmente se aplica a idéia de uma igreja global, que é parte do todo cristão.


* Wolfhart Pannenberg é um dos maiores teólogos protestantes contemporâneos. Nasceu no ano 1928 na cidade de Stettin, Alemanha e foi batizado na igreja luterana. É considerado um teólogo da história, pois considera que a realidade histórica tem prioridade sobre a fé e o raciocínio humanos. Em sua reflexão, Pannenberg busca superar a marginalização da fé e da teologia em relação à razão moderna. A Teologia Sistemática de Pannenberg (Publicada em 3 volumes no Brasil pela editora Paulus) é considerada a melhor teologia sistemática do século 20. Em dezembro de 2008, a Universidade de Munique listava 645 publicações acadêmicas de sua autoria. Não concordamos com todos os aspectos da elaboração teológica de Pannenberg, porém publicamos este excelente texto por sua ênfase bíblica clara sobre o tema. Traduzido para o português por F. Wellington Ferreira.  Fonte:  

  
Contato: P. Joel Schlemper
joelschlemper@gmail.com 


Editorial: O Boletim Virtual  Luteranos em Movimento é organizado por um grupo de ministros da IECLB e tem por objetivo a reflexão e a Formação Cristã Continuada para dentro da igreja de Jesus.
A edição é quinzenal e pode ser usado tanto para a reflexão pessoal como em grupos de estudo. É livre para distribuição.