22 de jan. de 2013

Edição 6 - Pecado existe? E daí? (Estudo sobre a Santa Ceia)


PECADO EXISTE? E DAÍ?
(Estudo sobre a Santa Ceia)


Nossa sociedade aboliu o pecado da sua linguagem, enquanto que a mídia insiste em declarar os direitos individuais e o quanto merecemos a “felicidade” neste mundo. Como então explicar tanta violência, corrupção, falta de ética, etc? Não há limites para essa cultura de direitos? Acreditamos, sinceramente, que merecemos felicidade a qualquer preço? A felicidade é comprável? A Bíblia apresenta um espaço de acolhimento para quem reconhece o mal (que chama de pecado) com suas consequências e a solução para uma infelicidade crescente. Trata-se da Ceia do Senhor.
Em 1 Coríntios 11.27-28 Paulo afirma que participa dignamente nessa Ceia quem reconhece seus pecados e tem disposição de abandoná-los. Adverte que a pessoa que não admite ser pecadora ou que não se arrepende dos seus pecados encara a Ceia do Senhor com falsidade, como Judas Iscariotes. Quando participamos honestamente da Ceia, afirmamos que precisamos de Jesus por causa da sujeira do pecado, e não por estarmos limpos pelo nosso esforço de arrependimento. Portanto, isso é dádiva do Senhor e não obra humana.
Assim, a confissão dos nossos pecados e o arrependimento, como a fé em Jesus Cristo, são fundamentais no processo de nos tornarmos discípulos dele (Mc 1.15). Porém, com isso não deixamos de ser pecadores. Antes de crer em Jesus, éramos pecadores perdidos.  Agora somos pecadores acolhidos/salvos. Como tais, cremos na Palavra de Deus que lemos em 1 João 1.9.
O apóstolo Paulo faz uma comparação da Ceia (1 Co 10.3s) com o maná no deserto, descrito no Antigo Testamento.  Já naquela vez, Deus era o doador e a dádiva ao mesmo tempo. Por isso Jesus chama a si próprio de o verdadeiro maná, o pão da vida, o pão do céu. O que aqueles tinham em figura e sombra, nós temos como realidade: o grande alimento da alma, o corpo e o sangue de Cristo. A Ceia do Senhor também é chamada de Eucaristia, Sacramento do Altar ou Santa Ceia. Em João 6.56 lemos as seguintes palavras de Jesus: “Todo aquele que come a minha carne e bebe o meu sangue permanece em mim e eu nele”. Assim, na Ceia expressamos a nossa união com Cristo. É a fé no sacrifício de Jesus por nós que recebe esse presente dado por Deus.
         Para o reformador Lutero, a Ceia consiste na remissão e perdão dos pecados de quem  aceita o sacrifício de Jesus. Nela Deus nos dá salvação. Assim como no batismo o poder não está na água, na Ceia não está no comer o pão e beber o vinho ou simplesmente suco de uva, mas sim nas palavras: "Dado e derramado em favor de vocês para remissão dos pecados". Calvino declara que a Ceia foi instituída pelo Senhor para com ela firmar e selar em nossas consciências as promessas contidas no Evangelho. Ele nos faz participantes do seu corpo e de seu sangue para reconhecermos sua grande bondade, louvá-lo e magnificá-lo e ainda, nos exorta a toda santidade e inocência, porque somos feitos membros de Jesus Cristo.
Pela concepção de confissão luterana: na Ceia recebe-se Cristo por inteiro, com todos os benefícios do seu sacrifício. Ao fazê-lo, torna presente a eficácia deste sacrifício, desde a criação até o retorno dele. A ceia representa a comunhão com Cristo (1 Co 10.16) e fomenta a comunhão entre os irmãos. A participação na Ceia nos coloca num compromisso solidário na defesa da vida criada por Deus. Jesus instituiu a Ceia dando graças.  Portanto, ao celebrá-la também devemos manifestar alegria, gratidão e louvor pelo perdão e a remissão dos pecados. Através da Ceia celebramos e nos apropriamos da obra do Senhor. Se somos perdoados e reconciliados com Deus, também somos estimulados e exortados a agir de forma igual com o nosso próximo. Enfim, na Ceia vivenciamos uma mistura de sentimentos: tristeza pelos nossos pecados, disposição para a mudança, gratidão pelo perdão, celebração e alegria pela misericórdia de Deus em Jesus, comunhão com Cristo, perdão e compromisso com o próximo e expectativa pelo banquete celestial.

                                                        Airton Härter Palm



15 de jan. de 2013

Edição 5 - Sacerdócio real de todos os crentes


SACERDÓCIO REAL DE TODOS OS CRENTES

         No decorrer da Idade Média, a igreja cristã na Europa organizou-se em paróquias. Esta estrutura perdurou por mais de um milênio com igrejas edificadas no centro de vilas e cidades e com a vida de sua população gravitando em torno delas.

         Este modelo de igreja não foi modificado pela Reforma do século XVI. Assim o encontramos tanto na Rússia ortodoxa, na Itália católica, na Inglaterra anglicana, na Suíça presbiteriana como na Alemanha luterana. Ele alicerçava-se a divisão entre clero e leigos. As diferentes confissões não alterariam o fato básico de que em todas elas o clero “produz espiritualidade” e leigos a “consomem” (MALM, Magnus, Vägvisare, 2a ed, 1991,26s.). Isto prestigiava os 'reverendos' e era normal eles serem convidados como “autoridades religiosas” para solenidades.

         Entrementes, porém, este cenário mudou. As igrejas ainda continuam nas praças centrais, mas já não desempenham o papel de outrora. Quanto maior a cidade, mais adiantada a sua marginalização. Os shoppings e outros espaços de lazer e consumo tomaram o seu lugar. Os pastores e padres, quando muito, são “reverendos” para as suas congregações. O pluralismo cultural e religioso faz com que uma infinidade mensagens concorram com seus sermões dominicais.

         Nesta progressiva corrosão do modelo paroquial, pastores e padres se veem cada vez mais expostos a uma “opressão da performance” (EGG, Tuco, Igreja entre aspas, 2011, p.42): diante do encolhimento do público nas celebrações eles são cobrados para fazer a igreja navegar de vento em popa como outrora. E isto gera desencanto, stress e frustração.

         Será que a Reforma iniciada com Martinho Lutero nos pode ensinar algo neste ambiente acuado?

         Os reformadores viviam em outro tempo e enfrentaram outras dificuldades. Por isso as propostas deles não respondem necessariamente a nossas perguntas e angústias. Mesmo assim, vale a pena sondar se o seu horizonte não se comunica em algum ponto com o nosso. Podemos ousar fazê-lo, porque o Deus trino continua o mesmo. Por dependermos do mesmo evangelho da graça de Jesus Cristo, podemos e devemos procurar aprender das suas testemunhas no passado.

         Lutero é muito elogiado pelo que ensinou do sacerdócio geral dos crentes. Mas isto praticamente ficou sem efeito por permanecer na sombra da pesada herança paroquial. Na prática, também as igrejas evangélicas continuaram divididas em duas classes de cristãos – clero e leigos – e, por isso, esqueceram o que o reformador concluíra do evangelho.

         Agora, porém, que o modelo paroquial vai-se esvaindo, redescobrimos que, ao insistir o sacerdócio de todos os crentes, Lutero, na verdade, questionou a legitimidade da segmentação da igreja em clero e leigos:

Se perguntas qual seria, então, a diferença entre os sacerdotes e os leigos na cristandade, se todos são sacerdotes, a resposta é: cometeu-se uma injustiça com as palavras “sacerdote”, “cura”, “religioso” e outras semelhantes, quando o povo em geral foi delas excluído, para serem atribuídas a um pequeno grupo … A Sagrada Escritura não conhece nenhuma outra distinção do que aquela de nomear os instruídos e ordenados como … servidores, servos e administradores – , cuja missão consiste em pregar à demais pessoas Cristo, a fé e a liberdade cristã.” (LUTERO: Da Liberdade Cristã, 5a ed., 1998, p.25s.)

         O motivo de Lutero considerar esta divisão entre leigos e clero uma “injustiça” reside na justificação por graça: quem foi resgatado do pecado pela morte e ressurreição de Jesus participa do reinado e do sacerdócio dele. Jesus foi elevado à direita de Deus e se tornou Senhor de “céus e terra” (Mt 28.18s.; Fp 2.9ss.). Por seu sacrifício ele – como o verdadeiro sacerdote – intercede (cf. Hb 8-9) por nós diante do Pai e nos ensina o seu amor gracioso. Portanto, quem crer nele participa deste senhorio e sacerdócio. Ninguém jamais poderá privá-lo do amor de Deus (Rm 8.28ss.). Todo crente tem acesso direto ao trono da graça e, por isso, pode interceder e ensinar seus irmãos. Assim Jesus, o único mediador (1Tm 2.5), capacita e envia todos seguidores seus para levarem o evangelho mundo afora.

         Nesta participação do senhorio e do sacerdócio de Jesus reside a liberdade cristã. Mesmo sem modificar a estrutura paroquial, Lutero não deixa margem para dúvidas: a missão de “pregar a demais pessoas Cristo, a fé e a liberdade cristã” é dever de cada cristão. “Pois num caso destes um cristão  enxerga em amor fraternal a necessidade das pobres almas em perigo, e não espera que... bispos lhe deem ordem ou cartas. Porque a necessidade rompe todas as leis e não tem lei.” (LUTERO: Pelo Evangelho de Cristo, 1994, p. 198).

         Assim entendo que podemos aprender do Reformador que somos chamados a vivenciar nosso sacerdócio em nossa sociedade secularizada e pluralista. Nesta caminhada é importante observarmos:

         1- Para aprender a testemunhar a fé na sociedade pós-cristã precisamos abrir espaço para compartilhar dificuldades e experiências. Nossos cultos e reuniões precisam tornar-se um lugar de ensino mútuo. Não o aprenderemos com quem não convive no mundo secularizado. Assim encorajados e confiantes no Espírito Santo, ousemos falar do evangelho em nossas casas, no trabalho e onde quer que convivamos com “pobres almas em perigo”.

         2- Quando uma igreja começa a exercitar o sacerdócio geral, também o papel do pastor muda. Ele passa a fazer retaguarda aos que estão na vanguarda, à semelhança do que fez a Dra. Zilda Arns na Pastoral da Criança. Em vez de monopolizar, como pediatra que era, o tratamento de crianças doentes, ela priorizou capacitar agentes de saúde e, assim, reverteu o quadro de mortalidade infantil no Brasil.

         3- Por fim precisamos lembrar que luteranos não são os únicos herdeiros da Reforma. Há outros exercitando-se neste sacerdócio como se pode depreender das palavras de Eliezer Morais, pastor da Assembleia de Deus, num debate na Rádio Gaúcha em Porto Alegre (em 02/07/12): “Proclamamos o que herdamos da Reforma – a salvação somente pela graça, fé e Escrituras –, não clericalizamos a liturgia, trabalhamos com simplicidade, envolvidos com a realidade do povo brasileiro e fazemos com que os fiéis leiam a Bíblia” .
                           
Martin Weingaertner, FATEV, Curitiba
(Para contatar o autor: weingaertner.martin@gmail.com

19 de dez. de 2012

Edição especial de natal


O natal que devolve a vida


         O que realmente aconteceu naquele primeiro natal em Belém? Vejamos: O diabo e o pecado nos roubaram a Vida Eterna. Mas como Deus pôs no coração do ser humano o anseio pela eternidade (Eclesiastes 3.11), eles não conseguem extirpar de nossa alma o desejo pelas coisas eternas. Este anseio produz em nós uma inquietação que nos faz procurar em nós mesmos, em outras pessoas e nas coisas por algo que nos satisfaça e dê sentido à nossa vida. Mesmo sem o saber, buscamos o que mate a nossa sede por eternidade.

         Mas nenhuma pessoa e nenhum objeto nos satisfazem plenamente. É como se uma parede nos separasse da verdadeira vida, produzindo a sensação de que não nos encaixássemos neste mundo.  C. S. Lewis chamou gotas de graça aqueles rumores de transcendência que ele experimentava quando ouvia música, lia mitologia grega ou visitava uma catedral.  E ele concluiu: Se encontro em mim um desejo que nenhuma experiência deste mundo pode satisfazer, a explicação mais provável é a de que fui criado para outro mundo. 

         Para John Piper a tragédia do mundo é que o eco é confundido com o grito que o iniciou. Quando estamos de costas para a beleza fascinante de Deus, fazemos sombra na terra e nos apaixonamos por ela própria. Mas isto não nos satisfaz verdadeiramente. Os livros ou a música onde pensamos estar a beleza nos trairão, se confiarmos neles.  Pois eles não são a coisa em si, eles são somente o aroma de uma flor que não encontramos, o eco de um tom que ainda não ouvimos, notícias de um país que nunca visitamos

         Quando Jesus nasceu, este outro mundo eterno para o qual fomos criados nos visitou e irrompeu para dentro de nosso mundo finito: E o Verbo se fez carne e habitou entre nós, cheio de graça e de verdade, e vimos a sua glória, glória como do unigênito do Pai.  (João 1.14). Somente quando permitimos que Jesus – o Verbo Eterno – nos encontre em meio à nossa busca louca, nossos anseios pela eternidade são saciados. Somente ele transforma nossa vida e nos devolve a Vida Eterna. Como expressou Agostinho: Fizeste-nos para Ti, e inquieto está o nosso coração, enquanto não repousa em Ti.

P. Sigolf Greuel



12 de dez. de 2012

Edição 4 - Somos Igreja Evangélica de Confissão Luterana no Brasil


Somos Igreja Evangélica de Confissão Luterana no Brasil

Nesta edição do Luteranos em Movimento encerramos a reflexão sobre o significado de sermos Igreja Evangélica de Confissão Luterana no Brasil. Sendo assim, abordaremos a expressão “no Brasil” no nome da denominação.

Em primeiro lugar, ela revela nossa origem estrangeira. As primeiras comunidades luteranas foram fundadas no Brasil em 1824, em Nova Friburgo (RS) e São Leopoldo (RS), respectivamente. Diferente de outras denominações protestantes no Brasil, o surgimento destas comunidades luteranas não resultou do envio intencional de missionários para evangelizar os brasileiros. Antes, resultou do processo imigratório de europeus empobrecidos que vieram motivados pelas promessas de concessão de terras do governo brasileiro.

         Inicialmente a imigração foi vista como solução para a colonização e povoamento de extensos territórios vazios no Brasil imperial. Com a crescente necessidade de mão-de-obra para a lavoura cafeeira e a pressão internacional contra o tráfico negreiro, grandes levas de imigrantes também foram trazidos para trabalhar na agricultura.

Entre os imigrantes havia suíços, belgas e, principalmente, alemães. Muitos deles eram luteranos e alguns reformados. O governo brasileiro instalou-os em colônias, territórios ainda “não ocupados”, nos quais houve muitos conflitos com índios. Há inúmeros relatos de assassinatos tanto de colonos quanto de índios em função dessa política agrária desastrada. A organização destas colônias, por si só, isolou os imigrantes. Outro fator  do isolamento social foi a Constituição de 1824 que declarava o Catolicismo Romano como religião oficial do Império. Assim, os colonos evangélicos eram proibidos de construir templos, embora não, de realizar cultos. Um terceiro fator de isolamento foi estabelecerem-se comunidades cristãs a partir de uma cultura de atendimento, ou seja, de pastores enviados da Alemanha para atender exclusivamente os imigrantes.

As igrejas fundadas nesse processo imigratório passaram a colaborar umas com as outras, formando-se quatro sínodos luteranos no Brasil: o Sínodo Riograndense (1886), o Sínodo Evangélico Luterano de Santa Catarina, Paraná e outros Estados (1905), o Sínodo Evangélico de Santa Catarina (1911) e o Sínodo das Comunidades Evangélicas Alemãs do Brasil Central (1912). Em 1949 estes sínodos formaram uma Federação Sinodal e finalmente, no ano de 1962 esta adotou o nome de Igreja Evangélica de Confissão Luterana no Brasil.

Olhando para esta história também somos lembrados da nossa dívida evangelizadora com o país. As circunstâncias históricas fizeram-nos desenvolver uma cultura de gueto, formatando uma igreja com marcas culturais homogêneas, étnica definida. A palavra “missão” não fez parte das nossas raízes, da nossa origem histórica; não está em nosso “DNA comunitário”. Em vista disto a expressão “no Brasil” do nome, lembra-nos de que somos igreja de Jesus Cristo neste país, para todas as pessoas que aqui vivem. Eis um grande desafio a superar!

Alguns passos já foram dados, mas há uma longa jornada a percorrer nesse horizonte missionário. Termino citando o meu exemplo: sou pastor luterano no interior de Goiás. Como nossa igreja chegou aqui? Através do fluxo migratório de sulistas que vieram em busca de terras para desenvolver a agricultura. Nosso caso é sintomático. É esse processo histórico que explica a presença da nossa igreja em todo Mato Grosso, Amazônia e grande parte do Brasil Central. É chegada a hora de nós luteranos plantarmos comunidades que sejam fruto de nossa intencionalidade missionária, que sejam resposta de nossa IECLB ao chamado de Jesus Cristo para nós neste país. Mãos a obra!

P. Daniel Schorn


Grupo de trabalho para o Boletim Virtual de Formação Cristã
P. Joel Schlemper – São José, SC
P. Daniel Schorn – Chapadão do Céu, GO
P. Dilmar Devantier – Palhoça, SC
Miss. Airton Palm – Curitiba, PR
P. Joelson Martins – São José, SC
P. Leandro Ristow – Maravilha, SC
Miss. Rodomar Ramlow – Pelotas, RS
P. Sigolf Greuel – Florianópolis, SC
P. Martin Weingaertner – Curitiba, PR
P. Wilhelm Sell – Palhoça, SC
P. Tiago Winkel – Presidente Getúlio, SC



27 de nov. de 2012

Edição 3 - Somos Igreja Evangélica de Confissão Luterana.

Somos Igreja Evangélica de Confissão Luterana.

Temos refletido em nosso Boletim Virtual a respeito do que significa IECLB – Igreja Evangélica de Confissão Luterana no Brasil. Já analisamos o que é ser Igreja e, aliado a isso, Evangélica. Na denominação de nossa igreja, além de afirmarmos que somos Igreja Evangélica, dizemos também que somos de Confissão Luterana. Mas, o que isso significa?

Para iniciar, é importante ressaltar que quando dizemos ser de Confissão Luterana, não afirmamos que Martim Lutero fundou nossa igreja.  Como igreja de Jesus Cristo, a igreja luterana tem a sua origem no Pentecostes. Fato é que a leitura e o estudo da Bíblia provocaram aquilo que chamamos de Reforma Protestante, que teve Lutero como figura central. Em 1517, com o propósito de provocar uma discussão a respeito de sua descoberta bíblica da salvação pela graça, ele acabou mudando o rumo da história da igreja e do mundo.

Convém relembrar que nessa época havia a compreensão de que a justificação, a salvação pessoal e de outros, poderia ser adquirida por meio da venda de indulgências, ou seja, venda do perdão, libertação e salvação. No entendimento da igreja da época, havia uma espécie de “caixa positivo” dos benefícios de Cristo e de outros santos, que a igreja, por causa do ofício das chaves, poderia negociar. Lutero, percebendo que essa compreensão não era bíblica, criticou-a. É que ele entendia que essa prática desviava as pessoas da compreensão correta daquilo que Deus fez na pessoa de Jesus Cristo. Disso se desencadeou todo um processo de estudo da Palavra. Naquele tempo, o povo em geral não tinha acesso às Escrituras. Poucos sabiam ler. Por essa razão, Lutero deu grande ênfase na educação de todos e traduziu a Bíblia para a língua de seu povo. Sua intenção era que todos tivessem a possibilidade de conhecer a obra de Cristo, o crucificado, morto e ressurreto, crescer na fé e viver a partir do Seu Amor e Graça.

No desenvolvimento da Reforma, a ruptura com a igreja da época se tornou cada vez mais certa. Surgiram alguns escritos confessionais que ressaltaram a distância em relação à igreja romana. Exemplo foi a “Confissão de Augsburgo”. Nesta se ressaltou a centralidade de Cristo na experiência da justificação, acentuando o fato de que na morte do Deus Filho o ser humano é aceito de forma incondicional. Essa compreensão é conhecida ainda hoje como o pilar da reforma na afirmação “Solus Cristus”. Com o tempo, as igrejas da Reforma começaram a se organizar. Desde o início, consideraram importante o estabelecimento de alguns escritos confessionais, entre eles os credos da igreja antiga, por exemplo, Credo Apostólico, Confissão de Augsburgo e Catecismo Menor. Estes documentos se tornaram também referencia confessional na organização da Igreja Evangélica no Brasil, aqui chamada Igreja Evangélica de Confissão Luterana no Brasil.
Diante de tudo isso, podemos dizer que ser de confissão luterana é afirmar que como igreja queremos continuar na mesma  trilha da reforma. Que temos a intenção de ser igreja sempre em reforma, indo ao encontro das pessoas em seus dilemas e perguntas existenciais. Ser igreja relevante! Ser igreja da Palavra (“Sola Scriptura”)! Para isso aceitamos os Credos da Igreja Antiga, o Catecismo Menor e a Confissão de Augsburgo como nossos escritos confessionais. Estes nos ajudam a ter parâmetros claros de leitura e estudo das Escrituras. A nossa tarefa hoje, que foi também a da época de Reforma, é não permitir que fatores externos interfiram na interpretação da Bíblia, o que sempre se mostrou como tendência do ser humano pecador. Nesse sentido, ser de confissão luterana é ser fiel a palavra de Deus, que permanece a mesma ao longo de todos os tempos. É afirmar com toda nossa força e convicção que somos salvos apenas mediante a fé (“Sola fide”), somente por causa da graça de Deus (“Sola Gratia”), que nos alcançou porque Deus ama incondicionalmente homens, mulheres e toda Sua criação; amor encarnado em Cristo Jesus (“Solus Cristus”).
P. Ms. Wilhelm Sell

Grupo de trabalho para o Boletim Virtual de Formação Cristã
P. Joel Schlemper – São José, SC
P. Daniel Schorn – Chapadão do Céu, GO
P. Dilmar Devantier – Palhoça, SC
Miss. Airton Palm – Curitiba, PR
P. Joelson Martins – São José, SC
P. Leandro Ristow – Maravilha, SC
Miss. Rodomar Ramlow – Pelotas, RS
P. Sigolf Greuel – Florianópolis, SC
P. Martin Weingaertner – Curitiba, PR
P. Wilhelm Sell – Palhoça, SC
P. Tiago Winkel – Presidente Getúlio, SC

13 de nov. de 2012

Edição 2 - Somos igreja evanélica


13 de novembro de 2012 – Edição 2 

Somos Igreja Evangélica

Por que Igreja EVANGÉLICA?

Quando nos designamos de “Evangélicos” precisamos lembrar que este termo de origem grega provém de Evangelho e significa “Boa Notícia”. Quando anunciou o nascimento de Jesus Cristo aos pastores nos arredores de Belém, o anjo utilizou esta palavra.


O anjo, porém, lhes disse: Não temais; eis aqui vos trago boa-nova [Evangelho] de grande alegria, que o será para todo o povo: é que hoje vos nasceu, na cidade de Davi, o Salvador, que é Cristo, o Senhor. (Lucas 2.10-11)


O movimento de Reforma iniciado por Lutero afirma que o seu fundamento é o Evangelho de Jesus Cristo que morreu e ressuscitou para a redenção graciosa de quem nele crer. Por isso foi sua ênfase na autoridade da Escritura como exclusiva fonte de doutrina e fé: “Somente a Escritura”.


Foi no estudo das Sagradas Escrituras que  Lutero redescobriu que somos aceitos graciosamente por Deus  pela fé.
Como Igreja Evangélica devemos e queremos ser fiéis ao que o Evangelho proclama e ensina, ou seja:
1.    Como a rebeldia contra Deus (=pecado) afeta todas as pessoas em todos os tempos e lugares, toda humanidade é carente de salvação.
2.    Deus mesmo providenciou graciosamente a salvação em Jesus Cristo que morreu na cruz e ressuscitou ao terceiro dia.
3.    A esta oferta amorosa requer nossa resposta bem pessoal ao sacrifício de Jesus Cristo – conversão.


A Bíblia é a Palavra de Deus

Confessamos a inspiração divina da Bíblia, isto é, ainda que escrita por autores humanos ela é instrumento de Deus para comunicar-se conosco.  Isso faz da Bíblia um livro único e incomparável.  É autoridade máxima em questões de fé e vida:

“Toda a escritura é inspirada por Deus e útil para o ensino, para a repreensão, para a correção, para a educação na justiça.” (2 Timóteo 3.16)


O centro do testemunho bíblico é o anúncio de Jesus Cristo como único e suficiente Senhor e Salvador de toda a humanidade. Não há outro livro que cause tanto impacto, transformação de vida, esperança aos cansados, consolo aos desalentados e restauração em qualquer lugar do mundo. Deus quer comunicar-se continuamente com o seu povo e o faz principalmente quando abrimos e lemos a Bíblia.


Existem muitas histórias fascinantes relacionadas à leitura da Bíblia. Vidas foram transformadas e renovadas pela leitura da Palavra de Deus. Assim, a Bíblia tornou-se o livro mais popular que existe. É também o livro mais poderoso e o mais precioso.


Leia, pois, sua Bíblia e permita que Deus comunique a sua boa notícia ao seu coração.

© P. Leandro Daniel Ristow

31 de out. de 2012

Edição 1 - Somos igreja

30 de outubro de 2012 – Edição 1

Somos Igreja 


Três Lições Sobre Igreja


Para compreendermos o que é a Igreja, é necessário refletir sobre três questões fundamentais. A Bíblia é a fonte primária que nos revela o surgimento da igreja bem como viviam os primeiros cristãos. Primeiramente, vejamos as palavras de Jesus: “E eu lhe digo que você é Pedro, e sobre esta pedra edificarei a minha igreja, e as portas do Hades não poderão vencê-la” (Mateus 16. 18). O aspecto importante a se destacar aqui é quem edifica a igreja. Se a igreja é mais do que um templo ou um clube social, não podemos acreditar que ela seja edificada por nossos próprios esforços. A igreja é um corpo místico, fruto da obra do Espírito Santo. Ela não é fruto dos meus próprios esforços. Ela não é edificada por papas, pastores, missionários, presbíteros, monges, padres, bispos, teólogos ou pedreiros. Jesus afirmou que a Igreja é edificada por Ele.

Para a segunda questão, vejamos as palavras do Apóstolo Paulo: “Ora, vocês são o corpo de Cristo, e cada um de vocês, individualmente, é membro desse corpo” (1 Coríntios 12. 27). Paulo está escrevendo para a Igreja. É para uma comunidade cristã que ele afirma: “vocês são o corpo de Cristo”. A pergunta correta, portanto, não é o que é igreja, mas, quem é igreja? Se a igreja é comparada a um corpo, então, ninguém de nós é um corpo completo se isolado. Somos membros deste corpo que é a igreja. Por isso, a palavra correta geralmente utilizada sobre a filiação de alguém a uma comunidade de fé é membro. O mesmo Paulo diz ainda que “assim como cada um de nós tem um corpo com muitos membros e esses membros não exercem todos a mesma função, assim também em Cristo nós, que somos muitos, formamos um corpo, e cada membro está ligado a todos os outros” (Romanos 12. 4-5).

Sobre a terceira questão, Paulo declara que “Cristo é o cabeça da igreja, que é o seu corpo, do qual ele é o Salvador” (Efésios 5. 23). Se a igreja é um corpo, então, este corpo tem uma cabeça. Quem seria a cabeça dentre os diversos membros? O corpo humano é apenas uma metáfora para representar a igreja. Porém, uma metáfora bastante útil. Ela nos ajuda a entender a verdadeira natureza da Igreja de Cristo. Cristo é cabeça da Igreja. Lembremos que é na cabeça que está o cérebro. Qual é a sua função? A função do cérebro é controlar todos os movimentos do corpo humano. O cérebro é o órgão mais importante do sistema nervoso, pois é ele que controla os movimentos, recebe e interpreta os estímulos sensitivos, coordena os atos da inteligência, da memória, do raciocínio e da imaginação. Vejam porque tão facilmente encontramos pessoas que gostariam de ser cabeça. Queremos isso, no entanto, porque gostamos do poder, queremos controlar, fazer as coisas do nosso próprio jeito. Mas, por sermos pecadores, muitos de nós brigaríamos para ocupar esta função.

Felizmente o cabeça da igreja não é eleito por voto e nem nomeado por quem quer que seja. Jesus Cristo é o cabeça. É Ele que edifica a Igreja. Os que crêem são os membros. Você crê? Então você é Igreja. 
Miss. Rodomar Ramlow – Pelotas, RS


Grupo de trabalho para o Boletim Virtual de Formação Cristã
 P. Joel Schlemper – São José, SC
P. Daniel Schorn – Chapadão do Céu, GO
P. Dilmar Devantier – Palhoça, SC
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P. Joelson Martins – São José, SC
P. Leandro Ristow – Maravilha, SC
Miss. Rodomar Ramlow – Pelotas, RS
P. Sigolf Greuel – Florianópolis, SC
P. Martin Weingaertner – Curitiba, PR
P. Wilhelm Sell – Palhoça, SC
P. Tiago Winkel – Presidente Getúlio, SC