21 de out. de 2014

Acolher! O que isso significa?

Ninguém acolheu pessoas como Jesus. Esta, aliás, foi uma das marcas de seu ministério. De coração aberto recebeu toda sorte de pessoas machucadas e feridas. Pessoas que haviam perdido o rumo na vida encontraram nele um ouvido atento. Pessoas escravizadas e oprimidas sempre perceberam sua mão estendida. E mesmo quem vivia atolado em pecados não foi rejeitado. Jesus acolhia como ninguém.

Aliás, não há ninguém que possa fazê-lo como ele o fez. Na condição de Criador conhece o ser humano até as entranhas e nem as emoções mais profundas lhe podem ser ocultadas (Salmo 139.13-16). Na condição de Salvador foi tentado em todas as coisas à nossa semelhança e sabe muito bem em que desamparo somos lançados por conta do sofrimento e do pecado. Na condição de Espírito Santo ele consola e nos acolhe em nossas dores mais profundas como nenhum outro é capaz de fazê-lo (João 14.26).

Ao mesmo tempo, se ilude quem imagina e propaga que a atitude de Jesus se limita em acolher. Seria uma ajuda pela metade. Do que adiantaria ir a um médico que apenas nos recebe bem e ouve. Ou procurar um advogado que tão somente nos escuta, mas não aponta um caminho a seguir com a nossa causa. Jesus vai muito além de acolher superficialmente. Ele acolhe num sentido mais profundo.

O paralítico trazido à sua presença por seus amigos (Marcos 2) Jesus acolheu, curou de sua enfermidade e lhe perdoou seus pecados. Ao jovem rico desorientado pelo seu apego aos bens materiais, Jesus o amou e lhe apontou o caminho para encontrar a vida e o tesouro eterno (Mateus 19). O homem dominado por uma legião de demônios Jesus o libertou de sua escravidão e o restituiu à sua família (Marcos 5). Jesus foi o único a acolher a mulher flagrada em adultério (João 8) e lhe mostrou o caminho para uma nova vida.

Paulo, o perseguidor da igreja foi transformado e acolhido (Atos 9). Até mesmo Judas foi acolhido na ceia do Senhor, recebendo a oportunidade de começar uma nova vida. Os Evangelhos nos ensinam que Jesus acolheu pessoas, mas não acolheu seu pecado. Acolher o pecador não significa fechar os olhos para seu pecado, pois é justamente este a causa última e mais profunda de todo o sofrimento humano. Jesus acolhe pessoas como elas são, para dar a elas a possibilidade de experimentar novidade de vida, na medida em que crêem nele.

P. Sigolf Greuel – Florianópolis/SC 
pastor.sigolf@gmail.com

7 de out. de 2014

Saber escutar, acolher, compreender e saber anunciar

Saber escutar, acolher e compreender são habilidades muito importantes no aconselhamento cristão. Sem exercer empatia, o cuidado com pessoas fica comprometido. Sem ela, a pessoa a ser ajudada vai embora com um sentimento de frustração e de vazio existencial. Essas três habilidades são pressupostos importantes da psicologia moderna. Elas ajudam porque, ao sentir-se compreendida, a pessoa fica aliviada por estar em sintonia com quem a compreende e aceita.

Ao mesmo tempo em que aceitamos essa importante realidade, também percebemos que, na perspectiva da fé, ela traz consigo um problema existencial muito sério, pois saber escutar, acolher e compreender não indica direção para fora da aflição. Falta-lhe direcionar para a mudança, ao arrependimento.

Jesus, por exemplo, não se contentava em apenas acolher e compreender as pessoas. A quem demonstrava abertura, Ele também apontava para a possibilidade de mudança, de arrependimento. Para com aqueles que achavam saber tudo e que não estavam abertos a mudanças, Jesus dizia: Ta bem..., já que você sabe tudo, faça isso e viverá (Lucas 10.28).

Quando, porém, encontrava alguém com sede não somente de água, mas de vida, como a mulher Samaritana, Jesus, depois de mostrar carinho e compreensão, apontava para a possibilidade de mudança de vida. Ele disse a ela: Quem beber desta água tornará a ter sede outra vez, mas quem beber da água que eu lhe der nunca mais terá sede. Ao contrário, a água que eu lhe der se tornará nele uma fonte de água a jorrar para a vida eterna. A mulher, sentindo que não apenas era acolhida, mas que Jesus lhe oferecia a possibilidade de uma vida diferente, suspira e diz: Senhor, dê-me dessa água (João 14.13-15).

Já no Antigo Testamento os profetas, ao anunciar a Palavra de Deus, sempre chamam ao arrependimento. Por exemplo, após levar Davi a reconhecer o seu pecado e confessar: Pequei contra o Senhor, o profeta Natã o anima, anunciando-lhe o perdão: O Senhor perdoou o seu pecado. Você não morrerá (2 Samuel 12.13).

Certamente o aconselhamento cristão tem aprendido muito da psicologia. Ela nos ajuda a sermos mais compreensivos, a acolher melhor quem nos procura. O problema é que, muitas vezes, agimos como se fôssemos psicólogos, e deixamos de apontar para o arrependimento e para mudanças que Deus quer operar naqueles que ouvem o Evangelho.

Muitas vezes, também encontramos muitas pessoas que “já sabem tudo”, que não pensam em abrir mão das suas filosofias e “verdades”. Mas pense nas muitas pessoas que encontra que, como a mulher samaritana, estão sedentas de vida. O próprio compartilhar do Evangelho identifica e traz à tona essa sede. Devemos perceber que Deus quer que as acolhamos, compartilhemos com elas as Boas Novas de Jesus. Atitudes de aceitação as encorajam a perguntar da direção que sua vida precisa tomar.

 Jesus diz que somos sal da terra. Isto é, nossa característica é temperar a vida. Com alegria podemos apontar para veredas de luz. Como diz Pedro: Antes santifiquem Cristo côo Senhor em seu coração. Estejam sempre preparados para responder a qualquer pessoa que lhes pedir a razão da esperança que há em vocês (I Pedro 3.15).

P. em. Oziel Campos de Oliveira Jr – Palhoça/SC
ozieljrjr@hotmail.com

19 de set. de 2014

Edição 29 - Os desafios do estudo da Bíblia



Quem convive diariamente com sua Bíblia nem sempre se dá conta de que ela foi escrita há milhares de anos. Sem o perceber faz uma leitura seletiva dela, acolhendo o que entende e do que gosta, mas deixando de lado o que desagrada ou parece complicado. No entanto, ler a Bíblia assim não ajuda a amadurecer na fé em Jesus. E, maturidade é indispensável para enfrentar os desafios que cercam o povo de Deus nos dias de hoje. A seguir quero delinear três aspectos elementares que ajudam no estudo sério e consciencioso das Sagradas Escrituras:

1) Imagine a Bíblia como uma enorme pintura que retrata mais de um milênio da história de Deus com seu povo. Para compreender seus detalhes é preciso que, primeiro, tenhamos uma visão desta pintura toda. Precisamos entender o que une os 66 livros da Bíblia: a) Todos eles descrevem que o ser humano não corresponde ao propósito para o qual fora criado. Pelo contrário, mostram como ele vive em rebeldia constante contra seu Criador. b) A Bíblia também testemunha que Deus se curva com paciência sem igual sobre as suas criaturas rebeldes a fim de resgatá-las para ter comunhão com elas. Estas duas afirmações perpassam toda Bíblia até se cruzarem no Calvário: na morte e ressurreição de Jesus o amor de Deus alcança definitivamente a humanidade atolada no pecado e a resgata para a nova vida como filhos e filhas de Deus. Sem captar e acolher este panorama geral os mistérios da palavra de Deus jamais nos serão revelados.

2) Quem tem clareza e certeza deste panorama geral tira grande proveito em prestar atenção a detalhes do retrato que a Escritura faz. Pois, os profetas e apóstolos escreveram para pessoas de carne e osso que viviam numa época e em ambientes muito diferentes dos nossos. Fizeram-no na linguagem e usaram comparações que conheciam. Nas parábolas, por exemplo, Jesus recorreu ao cotidiano de criadores de ovelhas, agricultores e pescadores da Galileia. Assim, o olhar cuidadoso para o passado faz parte do nosso esforço de captar o que os autores queriam dizer aos primeiros ouvintes e leitores. Isto inclui o estudo das línguas nas quais a Bíblia foi escrita, a geografia, a cultura e a história dos tempos bíblicos. O Manual Bíblico da Sociedade Bíblica do Brasil reúne num livro acessível para qualquer leitor as principais informações garimpadas por estudiosos.

3) Mas saber detalhes sobre o contexto original da Bíblia ainda não nos dá compreensão do que ela tem a dizer a nós que vivemos dois mil anos depois numa sociedade urbana globalizada. Por isto é necessária uma terceira abordagem que identifica o que equivale em nossa cultura àquilo que a Bíblia ensina. Enquanto, por exemplo, não detectarmos que nosso coração é uma fábrica de desejos tão ambiciosos como o coração do povo de Babel, jamais compreenderemos como os nossos anseios, secretos ou declarados, destroem relacionamentos e comunhão. Ou, se vemos nos fariseus meros inimigos de Jesus, aquilo que o Mestre lhes disse jamais nos afetará. Quem, porém, percebe nas atitudes deles as dos “crentes” de hoje, descobrirá que nosso coração sabe cultivar a mesma vaidade piedosa. Lutero e Calvino não hesitaram em fazer estas atualizações ao expor a Bíblia, mas a grande maioria dos comentaristas modernos não se atreve a dar este terceiro passo. Por isto ajudam tão pouco as igrejas no seu testemunho concreto.

Encerro esta breve reflexão com a recomendação de um livro muito precioso: Timothy Keller: A CRUZ DO REI (Vida Nova/São Paulo. 2012). É um livro de leitura agradável e simples que guia o leitor pelo evangelho de Marcos. De modo singelo este pastor de Nova Iorque conecta cada passagem com o cenário bíblico maior; elucida aspectos importantes do contexto de então e atualiza a palavra para o ouvinte moderno. Além de fazer-nos atentar para o surpreendente testemunho do evangelista, também nos exercita nos passos de estudo bíblico acima descritos. Que o Espírito Santo nos dirija em nosso aprendizado. Amém.

Martin Weingaertner, diretor da FATEV 
 weingaertner.martin@gmail.com

1 de set. de 2014

Edição 28: Um Conceito Original de Ser Família

A compreensão estreita que vê a religião apenas como aquela que diz o “que pode” e “o que não pode” interfere na maneira como compreendemos a vontade de Deus também a respeito da família. A Bíblia não é um manual de instruções. Ela contém princípios que nos revelam a boa, agradável e perfeita vontade de Deus. E, o Apóstolo Paulo diz que esta é uma vontade que podemos experimentar. Mas, isso depende de certo inconformismo com o “espírito da época” (Rm 12.2). A vontade de Deus a respeito da família está revelada já no princípio das Escrituras. Lemos em Gênesis 1.27 que “criou Deus o homem à sua imagem, à imagem de Deus o criou; homem e mulher os criou”. Diferente daquilo que costumamos ouvir, o Novo Testamento não revela coisas diferentes, anulando a revelação do AT. A vontade de Deus permanece a mesma. Jesus deixa isso muito claro quando, numa discussão com os fariseus, faz uso daquilo que todos já sabiam: "Vocês não leram que, no princípio, o Criador ‘os fez homem e mulher’ e disse: ‘Por essa razão, o homem deixará pai e mãe e se unirá à sua mulher, e os dois se tornarão uma só carne’?” (Mateus 19.4-5).

Jesus não apresenta nenhuma reinterpretação para acomodar o texto e a vontade de Deus aos “novos tempos”. Ele apenas reafirma a revelação e a vontade original de Deus. Pois é isto que Cristo veio fazer: restaurar o mundo e o ser humano que encontram-se corrompidos pelo pecado. Jamais veremos Jesus justificando o pecado ou propondo uma releitura da Bíblia de modo que se encaixe melhor em nossos padrões.

As distorções, consequências do pecado, obviamente estão aí, por toda parte. Mas, Jesus não autorizou que nenhuma destas distorções fosse colocada como referência legítima para novos modelos. Ele sempre de novo apontou para o Pai, o Criador, a origem de tudo. Aquele cuja vontade é boa, perfeita e agradável! Viver segundo esta vontade é viver conforme a realidade que o Pai desejou!

O Senhor Jesus é aquele que redime também relacionamentos, lares, e famílias! Que possamos nos deixar transformar por sua graça e misericórdia, de modo que experimentemos a boa, agradável e perfeita vontade de Deus para nossas famílias!

16 de abr. de 2014

Edição 27: Chamados para supervisionar?

Deus chama todos os discípulos para trabalhar em seu Reino. Pedro refere-se a isto, quando ele apela aos “mais velhos” na fé para “pastorearem o rebanho de Deus que está aos seus cuidados” (1 Pe 5.1-3).

O raciocínio do apóstolo é simples: à volta de alguém mais velho na fé sempre deveria haver quem está começando a caminhar com Jesus. Por isto recomenda “olhar” pelos irmãos, como no semi-árido da Palestina um pastor atenta para cada uma de suas ovelhas ou como pais amorosos olham por seus filhos pequenos. Não se pode fazer isto “por obrigação”, mas, sim, só “de livre vontade, como Deus quer”. Nem, “por ganância, mas com o desejo de servir”. Tal cuidado também não se exerce “como dominador”, mas
apenas “como exemplo”.

Nestas palavras Pedro passa adiante a tarefa que Jesus lhe havia dado (Jo 21). Ele menciona também quem pode exercê-la: todo aquele que for “testemunha dos sofrimentos de Cristo” e tiver certeza de “participar da glória a ser revelada”.

No entanto, na medida em que as primeiras igrejas cresciam, tornou-se necessário quem olhasse pela comunidade toda. Parece que em Filipos percebeu-se logo esta necessidade. Pois, poucos tempo depois de plantada, Paulo escreve aos filipenses: “Paulo e Timóteo, escravos de Cristo Jesus, a todos os santos em Cristo Jesus que estão em Filipos, com os supervisores e servidores” (Fp 1.1). Supervisor é a tradução literal da palavra grega 'episcopos' que originou nossa palavra 'bispo'. Anos mais tarde, ao despedir-se da liderança da igreja de Éfeso, Paulo também menciona esta função: “Cuidem de vocês mesmos e de todo o rebanho sobre o qual o Espírito Santo os colocou como supervisores, para pastorearem a igreja de Deus, que ele comprou com o seu próprio sangue” (At 20.28).

Por fim, Paulo descreve detalhadamente na carta a Timóteo as qualidades que se deve esperar desta liderança: “Se alguém deseja ser supervisor, deseja uma nobre função. É necessário, pois, que o supervisor seja irrepreensível, marido de uma só mulher, moderado, sensato, respeitável, hospitaleiro e apto para ensinar; não deve ser apegado ao vinho, nem violento, mas sim amável, pacífico e não apegado ao dinheiro. Ele deve governar bem sua própria família, tendo os filhos sujeitos a ele, com toda a dignidade” (1Tm 3.1-3).

O padrão desta recomendação é deveras elevado. A atitude que recomenda podemos observar no próprio Paulo: a disposição de lutar consigo mesmo (“…esmurro o meu corpo e faço dele meu escravo, para que, depois de ter pregado aos outros, eu mesmo não venha a ser reprovado“ - 1Co 9.27) e para sofrer pelo evangelho (Ao convocá-lo o Senhor dissera: “Mostrarei a ele o quanto deve sofrer pelo meu nome” - At 9.16; cf. 2Co 11). Neste perspectiva devemos entender o incentivo apostólico: “Se alguém deseja ser supervisor, deseja uma nobre função” (1Tm 3,1).


  • A história da ovelha perdida nos ensina algo sobre pastoreio na igreja?
  • Quem olha pelo todo da sua comunidade?
  • Como podemos tornar-nos uma igreja em que se pastoreia cada ovelha?
  • Quem se dispõe à 'nobre função' de olhar por toda congregação?


P. Martin Weingaertner 
weingaertner.martin@gmail.com 
Faculdade de Teologia Evangélica de Curitiba

17 de fev. de 2014

Edição 26: Amor à vida e amor à Verdade

Uma novela chamada “Amor à Vida” está terminando. Sabemos que as novelas, principalmente aquela que vai ao ar no horário em que toda a família se encontra em casa, nos comunicam uma série de mensagens contrárias aos princípios bíblicos como: mentiras, traição conjugal, fornicação (sexo fora do casamento), adultério, prostituição, violência, etc. Porém, além dessas mazelas, “Amor à vida” enfatizou e transmitiu à família brasileira a ideia de que todos devem enxergar e aceitar, com toda naturalidade, o homossexualismo, o casamento gay e a formação de uma “família” com a adoção de filhos pelo “casal” gay.

Como sempre acontece nas novelas, tudo é programado e realizado dentro da mesma estratégia do Enganador (um dos nomes bíblicos do diabo): ideias transmitidas, com ou sem palavras, de maneira muito sutil, aumentando de intensidade gradativamente, temperadas com muito bom humor e envolvendo situações bem divertidas. Assim é feito para que a mensagem vá entrando bem devagar e repetitivamente no coração e na mente dos telespectadores a fim de não encontrar resistência e, depois de algum tempo, a mentira seja aceita como verdade e a verdade seja batizada de “preconceito”, “homofobia” ou outros termos considerados politicamente corretos.

No ano da Copa, podemos dizer que a Rede Globo, através dessa novela, fez mais um belo gol sobre os times das Igrejas Evangélicas e Católicas que professam o mesmo Novo Testamento, e por isso conhecem o Senhor e a verdade, mas que ainda aceitam passivamente todo o lixo televisivo que, diariamente, é despejado em nossos lares. A grande maioria de nós que batemos no peito nos identificando como cristãos, ao mesmo tempo, negligenciamos a ordem de Cristo para combater as mentiras deste mundo, vivendo e proclamando, com amor, as verdades da Palavra de Deus (a Bíblia), ainda que vá de encontro ao que parece ser normal para a sociedade. Porque está determinado que as novelas, as pessoas, o céu, a terra, tudo vai passar, “mas a Minha Palavra”, diz o Senhor, “permanecerá para sempre”.

A mensagem das novelas é sempre a mesma: “ame e aproveite a vida, de qualquer jeito, custe o que custar, usando as pessoas e aceitando qualquer tipo de amor”. A Bíblia, porém, nos diz que o convite do “Amor à vida” é incompleto e, por isso, perigoso. O verdadeiro amor à vida depende do amor ao Senhor Deus, o Criador da vida, que se revelou em Jesus Cristo, o qual nos alerta na Sua Palavra: “quem amar o mundo, a vida, a seu pai ou a sua mãe mais do que a Mim, não é digno de Mim.”

Quem aprende a obedecer a Palavra de Deus, por amor a Cristo, torna-se livre para amar a vida, pela certeza da vida eterna depois desta vida, e aprende a diferenciar a verdade da mentira assim como a mão direita da esquerda.

 Alexandre Fonseca de Melo
alexandrefonsecam@yahoo.com.br

18 de dez. de 2013

Edição 25 - 17 de dezembro de 2013

A palavra de Deus interage com a cultura dos relacionamentos a fim de moldar e conformá-los aos propósitos do Criador

Quem reflete sobre a orientação que a palavra de Deus dá para o casamento não deve imaginar que ela não leve em conta as mudanças culturais pelas quais os relacionamentos conjugais passaram no decurso dos séculos. A palavra e obra de Deus não impõem um modelo de casamento autoritariamente. Mas o Senhor quer que lhe demos ouvidos e aprendamos da palavra registrada na Bíblia.

O Antigo Testamento retrata como os patriarcas e, mais tarde, o povo de Israel viveram num ambiente em que a poligamia era difundida e culturalmente aceita. É importante observar como a palavra de Deus interage com este contexto: Por um lado ela não oculta nem omite as dores e amarguras dos relacionamentos polígamos[1]. Por outro lado, introduz leis que regulam os relacionamentos e que protegem as esposas (e escravas).[2] Assim o amor de Deus foi inibindo a poligamia e favorecendo a monogamia[3] .

No debate com os fariseus em Mateus 19 Jesus lembra Gênesis 1 e 2 para reafirmar o propósito do Criador com o casamento. Em sua carta aos Efésios (5.21(!)-33) Paulo ensina que o relacionamento conjugal é moldado pelo amor mútuo entre Cristo e a igreja. Portanto, a opção pela monogamia vitalícia é uma decorrência prática e lógica deste amor. Mesmo assim a igreja do Novo Testamento não excluiu da igreja os polígamos que se convertiam, apenas impediu que eles exercessem funções de liderança nela[4] .

Vemos que a palavra de Deus não se impõe “na marra”, mas ela se comunica com a realidade humana tal qual ela é. A Sagrada Escritura não ignora os moldes culturais, mas interage com eles a fim de gerar as mudanças que correspondam ao propósito Criador. O meu professor de aconselhamento, Manfred Seitz, resumiu este direcionamento de modo muito conciso em cinco “diretrizes bíblico-teológicas sobre o casamento:

1) No casamento Deus une duas pessoas concretas – um homem e uma mulher – num pertencimento
mútuo, que exclui rigorosamente pretensões de terceiros.
2) Por esta união eles estão vinculados enquanto viverem. Portanto: ela não é união temporária, pois, o que seria uma promessa de amor com duração limitada?
3) Os cônjuges reconhecem estarem destinados um ao outro na totalidade de seu gênero. O casamento não é apenas um estágio inicial da família.
4) A esta união é prometida a bênção de gerar nova vida. Ao contrário de antigamente – quando ela era óbvia – em nossos dias a tarefa de procriar precisa ser mencionada explicitamente.
5) Em tudo isto o casal é chamado do pecado e da alienação de Deus para a graça e para a comunhão com o Senhor, o fiador da sua estabilidade, que promete renová-los na intimidade do casamento.

Esta é a visão cristã: o casamento não é a realização da vida, nem a superação e eliminação do todos chamado para a comunhão vitalícia com uma pessoa específica que se doa por completo; - como estado é um espaço para exercitar a fé, a esperança e o ágape (=amor abnegado) que excede o espaço do (próprio) casamento, o que inclui assumir responsabilidade pelo futuro da terra através do consentimento (em querer ter) filhos e na disposição para (assumir) restrições e renúncia; - como lugar (é) o lugar no qual o chamado de Deus alcança quem se tronou cônjuge.
os problemas, mas - é o
A isto corresponde que… o amor, em sua confiabilidade e fidelidade, almeja “moldar-se institucional- jurídica-publicamente”. O amor conjugal necessita de uma continuidade temporal que protege os próprios cônjuges e os filhos e que não esteja sempre prestes a colapsar. Em situações críticas os cônjuges podem apegar-se ao 'saldo positivo (de amor) prometido pela palavra de Deus' (O. Bayer)”[5]

Quem der ouvidos ao que ensina a Escritura e dela aprender, discernirá o direcionamento que Deus nos dá em meio ao conturbado cenário de relacionamentos da nossa sociedade. Não fecharemos os olhos para o fato de que muitos desconhecem ou ignoram o propósito divino. Olharemos para esta realidade sem moralismo, mas também sem ocultar as muitas feridas visíveis e ocultas. Ao mesmo tempo indicaremos com nossa vivência conjugal o caminho do enfrentamento do nosso egoísmo nato e da restauração para o qual o evangelho convida. A obediência que vem da fé[6] ajuda a despoluir e a reconstruir a vida e também os relacionamentos conjugais.

P. Martin Weingaertner, Curitiba 
weingaertner.martin@gmail.com 

 [1] Abraão/Sara/Hagar – Gn 16-21; Jacó/Lia/Raquel/Bila/Zilpa – Gn 29-30; Sansão – Jz; o levita e a concubina – Jz 19; Elcana/Ana/Penina – 1Sm 1-2; Davi – 1-2 Sm ; Salomão – 1 Rs; etc..
[2] Lv 19.20s; 20.10ss; Dt 22.13ss; 21.10s.
[3] “Esposa/marido da juventude” (Pv 5.18; Is 54.6; Ml 2.14s.; Jl 1.8) e “meu marido” (Os 2.16). 
[4] 1Tm 3.2; 5.9; Tt 1.6.
[5] SEITZ, Manfred: Die Ehe im Spiegel der Liturgie de Trauung. Em BAYER, Oswald (org) : EHE, Zeit zur Antwort, p.110s. Neukirchner Verlag / Neukirchen-Vluyn. 1988. ISBN 3-7887-1275-9
[6] Cf. Rm 1.5; 16.26